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quarta-feira, 18 de maio de 2011

O homem que amansava animal.











 Imagem Google





Aquele homem franzino, com suas esporas sempre vistosas sobre aquelas botas longas, era o mais ágil e valente daquela região. Seu nome era Venâncio, um negro criado lá pelas bandas do Furtado entre Itabira e Santa Maria, isto lá nas Minas tão Gerais, um lugar largado numa grota, serpenteados por um córrego de água frias onde se podiam pescar vários peixes como: Bagres, Lambaris, Mandis e Traíras.

Assim nasceu e viveu ali este homem entre todos os tipos de animais. Já criança tendo como companheiros velhos amansadores de animais, vaqueiros e lavradores. Quando sol se fazia presente, ele já estava na roça com seu ginete a campear as vacas para a ordenha. De posse de uma caneca de ágata verde já descascada em varias partes, dentro desta, rapadura raspada e mais uma composição em pó guardada a sete chaves, ensinada pelos vaqueiros.  Era seu ritual tomar uma caneca do primeiro leite com esta mistura todas as manhas, conforme orientação destes, que assim procedendo seria um dos mais importante e valente vaqueiro amansador, a quem todos os animais se reverenciariam.

Certa vez em suas prosas e causos de assombrações, ali junto ao fogão de lenha a espera de um mingau de milho que fervia numa panela preta de ferro, ele segredou. Dizendo que seus pais disseram, que quando ele veio ao mundo, foi lavado com sangue de tatu, pois assim se acreditava naquela época e região, que este ato, lhe faria uma pessoa protegida de todas as doenças e maldades do mundo, assim tipo corpo fechado. Assim era o Venâncio uma pessoa destemida, uma pessoa boa, o amansador oficial de animais. Era emocionante vê-lo em ação devido sua habilidade sobre aqueles animais, que se quedavam sob suas ordens.

Aquele animal Almofadinha, de quem falo no funeral animal no fundo quintal, foi um dos amansados por Venâncio. Lembro claramente daquele momento, era um domingo, toda meninada da rua sobre os muros das casas para ver aquele homem e o animal, como nas grandes touradas. Ele recebeu o animal e lentamente com numa conversa silenciosa com a criatura, ele ia aos poucos colocando as montarias e vez ou outra o animal mostrava repulsa, bufava e se empinava nas pastas traseiras, o que era motivo de festa e medo da criançada. 

Num instante de pura magia e concentração, ele chegou bem junto ás orelhas do animal, parecia um ritual de oração entre ele e a criatura. Alguns presentes diziam que era uma reza brava, que os piões tinham para esta arte, foi um momento que o silencio imperou total naquela rua. Num lance rápido o Venâncio se jogou sobre o cavalo e os dois encenaram a mais linda dança, varrendo todo salão digo rua com suas manobras arriscadas junto ás cercas e muros das casas. Aos poucos o animal foi cedendo e ele orgulhoso vitorioso apeou do cavalo que estava totalmente molhado e calmo.

 Tempos depois em conversa com tio Venâncio, ele não sabia dizer sobre a mistura usada naquele leite pelas manhãs, pois nem ele sabia. Mas o que ele falava para o animal naquele silencio profundo era uma oração que dizia assim: 

- “Santo Antonio pequenino amansador de burro bravo, amansa esse burro para mim, que é mais bravo do que o diabo. Que fique imóvel debaixo do meu pé esquerdo. Amém”.



Publicado no Recanto das Letras
Toninhobira

12 comentários:

  1. Toninho meu grande amigo!
    Que bela história esta! Fiquei com inveja do Senhor Venâncio! Porque não fui lavado com sangue de tatu?
    Linda esta história de um vaqueiro! O vaqueiro era a melodia do Oeste! Lembra não?

    Um abraço grande.

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  2. Olá
    Gostei do seu conto bem a moda rural, suas crenças e estórias e orgulhos.
    Seria bom mesmo termos o corpo fechado???

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  3. Qu legal tua crônica e adorei ver o Sr.Venâncio que com a oração conseguia amansar...Linda! abração,chica

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  4. Reza braba danada!! kkkk
    E o banho no sangue do tatu também nunca vi falar, mais que viajei no su texto isso viajei e amei ...kkkk
    Eta Minas Gerais quem te conhece não esquece jamais e nós hein mineiro, fazemos o que?
    Beijos e boa noite!

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  5. Todas as vezes que assisto o Cesar Millan(encantador de cães) eu me lembro daquela história do cavalo que você contou aqui. Estas pessoas tem algum dom especial realmente para o trato com animais. Tive um amigo assim também em Mariana. Eu possuia um pastora belga , uma fêmea meio indócil com todos, mas ele chegava, entrava sem medo em minha casa, conversava com ela e a mesma ficava quitinha ao seu lado. É impressionante essa história sua. Muito boa mesmo. Abração. Paz e bem.

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  6. Toninho, paz para todos, achei muito boa a tua crônica, só quem convive com o povo do interior compreende esses causos . gostei da discrição da região, na minha mente ia se tornando um filme,já disse aqui, que as montanhas me atraem, a medida que vc ia descrevendo, parecia ver tudo. mesmo a criançada em alvoroço. Essas pessoas que lidam com animais e chegam a doma-los, eles tem uma energia diferente . não sentem medo e o animal sente e o respeita, q tem fé e determinação e sabem que vão .conseguir. So quem convive com o povo do interior aprende a respeitar e acreditar nas histórias contadas, eu mesmo tinha um tio avó que curava o animal no rastro, e eram proibidos de por remédio no local ferido. Um abraço fraterno Celina

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  7. Oi Toninho,

    acho só "reza braba" mesmo pra amansar o bicho, literalmente hehe

    Muito boa crônica!

    * Pois, tenho o outro espaco pra publicar os selos, e outras brincadeiras da blogosfera, mas acabo "delirando" por lá também. Adorei sua presença!

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  8. Meu amigo Toninho.
    Taí algo que gosto muito e aprecio demais.
    Esta história me fez viajar nas asas da imaginação.
    Ah meu amigo... Que bom bom, que apesar de todo aparato tecnológico dos dias de hoje, as histórias, os contos, os "causos" não acabaram!
    Benditos lábios que ainda nos proporcionam VIVER E REVIVER estes momentos tão sublimes, que o tempo não apagará.
    Um abraço deste que o admira sempre.

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  9. Meu amigo, Toninho,
    que crônica maravilhosa! Lembrei-me dos causoa que meu pai contava, nas noites à beira da calçada,junto de todos os vizinhos que ficavam proseando. Nós, crianças, ficávamos atentas ouvindo e pensando se era verdade mesmo. Hoje nossos netos não têm tempo e nem paciência para tal. Que pena!
    Obrigada pelo carinho, amigo.
    Beijos

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  10. Pois é amigo, acho que vou copiar esse texto e colocar em um quadro na cabeceira da cama de alguem que conheço, pois ele quer amansar os pobres animais que nada lhe fez de mal, na pancada e xingamentos... Quem sabe ele aprende essa reza, ou entenda que os animais tem sentimentos, e que o entenderá bem melhor se os tratar com carinho e respeito...

    Amei esse causo, que de certa forma me tocou profundamente...
    Aplausos pra ti meu querido amigo!!!

    Deixo carinhos pra você, viu?
    Beijos

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  11. Olá meu amigo,
    gostei muito do seu texto, relembrando-me os bons tempos de Brasil, Bahia, Amargosa, Itapetinga, Vitória da Conquista, cidades que marcaram uma boa parte da minha vida.
    Amo passar por aqui, sentir este "gostinho" de terra, de natureza de simplicidade. Agradeco imensamente as suas visitas e vai me perdoando as ausências.
    Um grande abraco!

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  12. Poxa Toninho seus textos são lindos..faz a gente ficar mais perto da terrinha,com a simplicidade das entrelinhas que você escreve...
    Obrigada imensamente pela visita no meu blog..
    Essa musica de fundo é linda...
    bom dia para você.
    titi

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