quarta-feira, 26 de agosto de 2026

O olhar materno.

 

Escrevendoás quintas deste dia 27 vem com uma proposta da Monica no seu blog neogeminis onde ela apresenta a imagem acima e pede que em primeira pessoa, possamos escrever sobre o impacto de um olhar, ("Seja quem for o dono ou a dona desses olhos e sejam quais forem as circunstâncias")


 

O olhar materno.

Eu não lembro, de todas as palavras que ela me disse. Mas eu lembro de todos os olhares dela lá naquela vila operária onde cresci menino livre com vento nas costas. Uma rua de terra vermelha, de pouca luz. Lá as casas eram iguais e os vizinhos eram amigos. Cresci lá, sob os olhos de todos e principalmente de minha mãe.

Quando eu era pequeno e caía na rua jogando bola, machucava todos os dias, mas ela não corria desesperada. Ela me olhava firme nos olhos. Era um olhar que dizia: "levanta seja homem". E eu levantava, mesmo chorando.

Quando adolescente fazia coisas erradas, esperava dela repreensão e gritos. Ela só me olhava por cima dos óculos, na cozinha. Não tinha raiva. Tinha decepção e tinha amor, ao mesmo tempo no olhar. Aquele olhar por certo me corrigiu, pois tinha vergonha de vê-lo triste.

E quando eu fui aprovado para a escola profissionalizante (SENAI), quando voltei para casa com a farda fornecida pela companhia (Cia Vale do Rio Doce) cheio de orgulho, com um riso largo no rosto, ela me olhou da porta. O olhar dela já dizia: "eu sempre soube". Apenas me abraçou sem dizer nada.

Quando ela viu no jornal, o meu nome na lista dos aprovados no vestibular de engenharia, de seus olhos duas lagrimas compridas escorregaram. Olhou-me bem nos olhos e só disse: “eu tinha certeza.

Hoje eu entendo. Minha mãe nunca precisou ser forte na voz. Ela foi forte no olhar. O olhar dela foi meu mapa, meu freio e meu empurrão.

E até hoje, quando a vida me encara feio, eu lembro daquele olhar. E sigo. É porque, olhar de mãe a gente carrega para vida toda. Eu guardo esse olhar como um tesouro aqui no lado esquerdo do meu peito. Um olhar que é guia.


Toninho

25/08/2026

Grato pela visita.

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

O Céu mora no sertão

 


BC_Botandoa cabeça para funcionar, esta BC nasceu de uma brincadeira da Chica com seu neto Neno em leitura de imagens e hoje diante da partida do Neno para seguir estudos, ela trouxe esta imagem para externar sua já saudade. A BC acontece todos os dia 5,15 e 25 no seu blog sementesdiarias. Confira os olhares de outros amigos com link por lá.


O Céu mora no sertão

Vejo as asas em pleno voar.
O meu olhar vira em poesia.
Lá em cima é tão bom sonhar.
Mas lá embaixo é nostalgia.

Ver estas asas cortando o azul
eu aprendi uma singela lição.
Como é pequeno este nosso eu.
Mas tão imenso é o coração.

Uma nuvem passa risonha
por baixo da asa no flutuar.
Despedida triste em Congonha
com meu medo e meu sonhar.

Quando no sertão ele pousar
sentirei o chão voltar a ser chão.

Ficará na alma um recordar.
Talvez o céu mora lá no sertão.


Toninho

24/08/2026

Grato pela visita


quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Mala misteriosa.

BC_Escrevendoás quintas desta semana convoca com base na mensagem acima uma inspiração para a imagem acima. Proposta vinda da Patricia e Rosana no blog somosartesanosdaspalavras onde encontra links de outros participantes. Confira. 

 
 

Mala misteriosa.

 

O voo pousou em Salvador às 22h. Cansado, eu fui direto na esteira e peguei "minha" mala marrom igualzinha à minha. Só em casa percebi o erro.
Abri ansioso: nada de roupas. No lugar tinha um rolo de papel higiênico jumbo gigante, um descascador de legumes azul neon e uma capa de chuva vermelha.

Em pânico. Cadê minhas roupas, meus livros e meu notebook com todas as minhas postagens de 16 anos de blogosfera? Respirei e liguei para a companhia aérea.

 

"Senhor, temos uma passageira aqui com uma mala cheia de livros, roupas e um notebook. E ela está desesperada, vamos marcar um encontro no aeroporto."

Era a Dona Lúcia, 68 anos, voltando de visitar a filha em São Paulo. Ela tinha comprado o papel higiênico na promoção, o descascador porque "o dela quebrou" e a capa de chuva por causa de um alerta sobre uma previsão de temporal.

Marcamos de trocar as malas no aeroporto no dia seguinte. Cheguei primeiro.
Ela chegou depois com a minha mala e um pacote e foi dizendo, que "Trouxe um presente pelo susto". Dentro do pacote: um caderno novo.


"Vi que você escreve. Perdi meu marido ano passado e comecei a escrever para não enlouquecer. Talvez te inspire a escrever uma história."

Peguei minha mala de volta. Roupas amassadas, livros com minhas poesias e o notebook intacto. Mas ganhei também a história da Dona Lúcia, o descascador azul que ela insistiu para eu ficar, e a certeza de que às vezes a mala errada, pode lhe render uma nova amizade com uma pessoa amável.

Hoje o curioso descascador de legumes está na minha cozinha.
E no blog tem uma nova crônica de malas trocadas.

 

Toninho

18/08/2026

Grato pela visita


terça-feira, 11 de agosto de 2026

Greve no Metrô de São Paulo

 

Projeto Escrevendoás quintas nesta semana vem com proposta de Patricia e Rosana no blog somosartesãosdepalavras, onde elencaram algumas manchetes de jornais, para serem escolhidas e criadas as historias. 

Minha escolha:  Huelga en Londres por un fantasma.

Adpatei para a situação brasileira


Jornal a Folha do Tietê

*Greve no Metrô de São Paulo devido a um fantasma *  


Maquinistas param as linhas Azul e Vermelha após aparição de fantasma na estação da Praça da Sé. Com isso, o horário de in rush virou caos nesta quinta-feira. Metade do metrô parou às 5h da manhã. Motivo? Os funcionários entraram em greve até resolverem a situação da estação Sé.

Tudo começou quando a maquinista Julieta viu um homem de terno antigo e chapéu Panamá branco andando na contramão do túnel. "Ele estava com uma lanterna e um crachá. Parou, olhou pra mim e falou: _'Moça, cadê meu vale-transporte atrasado?'", contou Julieta, ainda assustada.

Comunicado ao sindicato, este soltou uma nota alertando sobre o estresse por que passava os operadores e que o fantasma se tratava de Joanito, ex funcionário da Companhia de metrô, que morreu esperando ganhar uma causa trabalhista na justiça, por isso devia estar vagando pela linha do metrô. Certa vez um faxineiro relatou que viu uma vassoura andando sozinha.

Gente curiosa passou a frequentar a Praça da Sé, ambulantes com seus pontos de vendas de lanches, outros vendendo velas e tinha até ponto de apostas, para ver quem era o fantasma. O bispo foi chamado para benzer a estação. Estableceu-se um centro de comercio variado na Praça, misturado com jornalistas e cinegrafistas, para registrarem a aparição.

Um grupo levou um pai-de-santo, que buscaram em Salvador de aviãao. Após seus demorados rituais ele disse que Joanito já estava em paz e que se retiraria dos trilhos. A maquinista Julieta devia acender uma vela branca todos os dias antes de suas viagens. Os presentes afirmaram, que sentiram um forte cheiro de enxofre e um apito longo vindo dos trilhos.

No dia seguinte o Sindicato declarou o fim da greve. Os trens voltaram nas Linhas Azul e Vermelha. Agora na Praça da Sé foi instalado um banquinho de cimento com o nome de Joanito, nosso funcionário do além.

No outro dia a manchete ironica no jornal dizia, que até fantasma faz greve na cidade de São Paulo, que esta cidade não brinca em serviço, nem depois da morte.

 

Toninho

11/08/2026

Grato pela leitura


terça-feira, 4 de agosto de 2026

Adeus carro de boi

 

BC_Botandoa cabeça para funcionar acontece todos os dias 5, 15 e 25 para uma imagem que a Chica posta em seu blog sementesdiarias. Confira os participantes com links por lá.


A velha roda encostada num tronco, comida pelo cupim e corroída pelo tempo. Já foi guia. Já cortou estrada de chão vermelho, levantou poeira e cantou rangendo nas curvas. Puxada por boi manso, guiada por mão calejada, que sabia o peso do mundo e o nome de cada pedra do caminho.

Hoje o mato tomou conta. O cipó abraçou os raios, folha virou coberta, formiga fez morada no eixo. O sol ainda bate nela, mas agora é só para lembrar a cor que ela já teve.

Ninguém mais escuta o ranger. Só o vento passando entre os raios vazios, assoviando uma canção antiga. E ela fica ali junto ao tronco como abandono.  

Ainda que esquecida ali no tempo, ela guarda histórias de estradas e gente.

A roda sozinha naquele tronco da mata é testemunha de que um dia a vida passou por ali, pesada, devagar, mas passou. Ela continua sendo roda, mesmo parada.

 

 Toninho

05/08/2026

Grato pela leitura



quarta-feira, 29 de julho de 2026

Uma vida no quase.

 

O projeto Escrevendoàs quintas deste dia 30 apresenta o Potpourri acima, para que usandos uma ou mais expressões acima, construa uma forma de texto. Proposta no blog da Monica, onde voce encontra links de outros participantes.
Minhas escolha: de tu recuerdo apenas sostengo una sombra.” e “la candidez de algo que casi fue.” 



IA


Uma vida no quase.

Otávio encontrava Ludmila pontualmente todos os dias na varanda às 6 da tarde. Ela chegava com um sorriso largo e Otávio com duas xicaras de café, mesmo sabendo que Ludmila não gostava de tomar café além do café da manhã. Alegava que lhe tirava o sono.

O encontro era sempre cheio de risos de coisas bobas. Eles gostavam de falar do futuro como quem fala de coisas bonitas, distantes, possíveis. Ela acreditava num tal dia e Otavio acreditava na realização em todos estes um dia dela. Mal sabiam eles, do que o destino tecia suas teias no silencio dos dois.

Mas aquele "um dia" nunca virou hoje. Devido conclusão de faculdade Ludmila foi para outro estado no Sul do país, convidada para outro trabalho, onde criaria outra história. Deixou Otávio ali, que por vários dias ainda ficava na varanda com um café na xicara a esfriar na solidão.

Ainda hoje, quando Otávio passa na rua da sua casa, dela recorda apenas uma sombra na calçada. Lembra, de como ela inclinava a cabeça, para ouvir a risada que começava baixinho. E também a candidez de algo que quase foi. Quase foi namoro. Quase planos. Dolorido foi pensar no quase “unidos para sempre”.

Consciente que nada foi. Mas foi tão bonito o suficiente, para ele guardar com carinho estas lembranças da Ludmila. Otávio aprendeu, que tem coisa, que não precisa acontecer efetivamente, para deixar marcas. Às vezes "quase" é o nome que se dá para aquela saudade, que não dói mais. Que ficou nas paredes da casa de sua memória.

 

Toninho

29/07/2026

Grato pela leitura