Escrevendo às quintas-feiras é um belo projeto que venho participando com escritores de varios países, esta semana a proposta vem do blog escritoranuriaespinosa que nos propõe a a mergulhar na nostalgia e memórias.
O cheiro da
casa da vó
Eu voltei lá na roça onde vivia minhas férias escolares.
A
chave era a mesma. A porta rangeu do mesmo jeito de 60 anos atrás.
A
casa estava vazia, mas cheia. Cheia de um tempo que não existe mais.
O sol da tarde entrava pela janela da cozinha, antes da total escuridão. Naquele facho de luz, sobre o fogão a lenha. Era ali que Mãe Cema coava o café. O cheiro não estava mais lá, mas eu senti, chamava a vó de Mãe Cema.
No quintal, as arvores. Eu subi tanto. Caí tanto. O balanço ainda pendia torto, com a corda gasta. Dei um empurrão. Ouvi o rangido vazio, mas balançou sozinho por um tempo, como se alguém invisível ainda brincasse. Sentei no banquinho de madeira. Fechei os olhos.
E ouvi. O rádio a pilha ligado na sala, minha vó me chamando para dentro, porque ia chover. O barulho da minha bicicleta caindo. A minha risada fina de criança. Nada disso estava acontecendo. Tudo estava acontecendo aqui dentro.
Uma lagrima escorregou. Não de tristeza. De uma saudade boa, profunda, que dói e abraça ao mesmo tempo. Levantei, passei a mão na parede de barro. Me despedi.
Tranquei
a porta. Mas deixei a janela da cozinha entreaberta. Para o sol continuar
entrando. Senti que uns olhos me vigiavam.
Toninho
27/10/2026
Grato pela visita


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