quinta-feira, 5 de novembro de 2026

De volta à Vila Operária.

 
Projeto Escrevendo às quintas-feiras desta semana vem da amiga Monica em seu blog neogeminis com o desafio de usar dois paragrafos de Jorge Luís Borges. Os meus são:

1-    Quando o fim se aproxima, não restam mais imagens na memória; apenas palavras.

2-   Há uma hora à tarde em que a planície está prestes a dizer algo; ela nunca diz, ou talvez diga infinitamente e nós não entendemos...



De volta à Vila Operária.


Voltei à casa na vila operária onde nasci e morei por 23 anos. A rua com as casas iguais, diferenciavam nas cores, a minha era e ainda é azul. Quintal imenso bem cultivado. Havia um fogão a lenha, onde revejo minha mãe de avental.

A mesa grande havia uma gaveta e nela achei o caderno da mãe. Ela tinha mania de copiar frases de livros, revistas e jornais. Não havia televisão, apenas o rádio a válvulas de difícil sintonia.  Duas frases estavam sublinhadas como favoritas, copiadas do livro de Jorge Luís Borges, que o pai comprou na capital. 

A primeira, ela escreveu bem caprichado: "Quando o fim se aproxima, não restam mais imagens na memória; apenas palavras." Eu li em voz alta e entendi. Eu já não lembrava a cor exata da tinta da parede, ora já enfumaçada da cozinha. Só lembrava das palavras dela: "cuida do fogo".

Lá fora, a chuva caia copiosamente no quintal, os trovões sucessivos vibravam as janelas e alguns raios clareavam a cozinha voltada para o quintal. Havia medo, quando estas chuvas desciam sobre a vila. Ninguém podia ficar perto de espelhos e coisas de aço. Tudo ficou dourado e silencioso.

Então li a segunda: "Há uma hora à tarde em que a planície está prestes a dizer algo; ela nunca diz, ou talvez diga infinitamente e nós não entendemos..."

Naquela hora, entendi. A planície não precisava falar. Nem a casa. As palavras da minha mãe eram as brasas acesas. "Cuida do fogo" era cuidar da vida, cuidar da gente.

Olhei para o fogão e coloquei a chaleira para ferver.

 

Toninho

04/11/2026

Grato pela visita


terça-feira, 27 de outubro de 2026

O cheiro da casa da vó

 Escrevendo às quintas-feiras é um belo projeto que venho participando com escritores de varios países, esta semana a proposta vem do blog escritoranuriaespinosa que nos propõe a a mergulhar na nostalgia e memórias. 

 

O cheiro da casa da vó


 Eu voltei lá na roça onde vivia minhas férias escolares.

A chave era a mesma. A porta rangeu do mesmo jeito de 60 anos atrás.

A casa estava vazia, mas cheia. Cheia de um tempo que não existe mais.

O sol da tarde entrava pela janela da cozinha, antes da total escuridão. Naquele facho de luz, sobre o fogão a lenha. Era ali que Mãe Cema coava o café. O cheiro não estava mais lá, mas eu senti, chamava a vó de Mãe Cema.

No quintal, as arvores. Eu subi tanto. Caí tanto. O balanço ainda pendia torto, com a corda gasta. Dei um empurrão. Ouvi o rangido vazio, mas balançou sozinho por um tempo, como se alguém invisível ainda brincasse. Sentei no banquinho de madeira. Fechei os olhos.

E ouvi. O rádio a pilha ligado na sala, minha vó me chamando para dentro, porque ia chover. O barulho da minha bicicleta caindo. A minha risada fina de criança. Nada disso estava acontecendo. Tudo estava acontecendo aqui dentro.

Uma lagrima escorregou. Não de tristeza. De uma saudade boa, profunda, que dói e abraça ao mesmo tempo. Levantei, passei a mão na parede de barro. Me despedi.

Tranquei a porta. Mas deixei a janela da cozinha entreaberta. Para o sol continuar entrando. Senti que uns olhos me vigiavam.

 

 

Toninho

27/10/2026

Grato pela visita


sábado, 24 de outubro de 2026

Uma imagem em 140 caracteres

 

Uma imagem em 140 caracteres de nossa amiga Marina na sua edição 666ª não tem nada a ver a besta e apreseta a imaagem abaixo para o exercicio de sintese no blog devaneiosedesvarios.

Olhar I

No gesto silencioso, um ato político:

recusar som, controle do algoritmo.

Desligar é dizer "eu me pertenço".

Um retorno para uma vida real.

 

Olhar II

Na mesa o celular dorme desligado.

Não é uma falha. É a minha escolha.

Num tempo em que todos nos vigiam,

desligar é um ato de real liberdade.

 

Toninho

24/10/2026

Grato pela visita.



Desejo aos brasileiros um dia

feliz de eleição com 

consciencia na democracia.

 

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quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Quem espalha flores, planta caminhos

 

BC_Botandoa cabeça para funcionar da Chica acontece todos os dias 5,15 e 25 para uma imagem postada no blog sementesdiarias. Participe e leia os amigos com links. Desejo uma feliz férias para Chica e Kiko onde haja muito Sol e paz.

Sempre numa bicicleta ele vai,

Com um balaio de cor e cheiro,

E pela estrada de pedra deixa

o rastro de um bom jardineiro.

 

E lá vai pedalando com beleza,

sem pressa, mas com um destino,

Cada flor que cai pelas pedras

Já floresce o chão do caminho.


Perde pétalas, ganha a estrada,

perde pressa, ganha um verso,

Quem espalha flor no caminho

Faz florescer todo o universo.

 

Toninho

15/10/2026

Grato pela visita



Minha homenagem aos mestres
em atividades e os inativos,
com igual importância.



quarta-feira, 7 de outubro de 2026

O rascunho da criação.

 

BC_escrendo às quinta nesta semana vem do amigo Ibso do blog caminoutopia onde tem links dos amigos participantes, onde ele propõe que crie uma historia sobre o primeiro rascunho. Eu enveredei pela ficticia criação de uma canção.

O rascunho da criação.

Era o ano de 1978 o país vivia sob uma ditadura, que já tinha sumido com muitos artistas contra o regime. A censura era total e o silencio imperava, alguns artistas buscavam na música, críticas ao sistema, mas sempre eram fichados e barrados pelo sistema.

O pobre Zé Carlos consertava rádio no bairro de Nazaré na cidade de Salvador. No balcão, entre um chiado e outro dos rádios, ele teve um estalo. Uma melodia inteira na cabeça e duas linhas que vieram redondas, perfeitas.

Ele pegou um guardanapo de bar, e anotou. Mas, depois nada veio na cabeça para continuar aquela música. Triste buscava inspiração e esta não vinha. Zé Carlos ficou noites acordado. Acendia a luz, pegava o violão emprestado do vizinho, tentava puxar o resto. Mas a música não vinha. Era como lembrar de um sonho pelo cheiro.

Com raiva e vergonha, amassou o guardanapo e jogou numa caixa de válvulas e parafusos. "Se não vem inteira, não presta para nada esta música." Aquela caixa enferrujada ficou por 23 anos num canto daquele cômodo.

No longínquo ano de 2001 Zé Carlos cansado aposentou e fechou a loja de conserto de rádios. O filho dele vasculhando as coisas da oficina, achou o papel amarelado, quase pó, e colou na geladeira só porque achou a letra do pai bonita.

Um amigo violonista que vivia no Pelourinho viu aquele rascunho, e ali mesmo sentado num banquinho de madeira colocou os acordes que faltavam, e a coisa tomou forma e chegou até o Caetano Veloso, que logo assumiu gravar.

Quando Zé Carlos ouviu numa rádio de Salvador pela primeira vez, ele não chorou, porque estava fazendo sucesso. Chorou porque, pela primeira vez em 23 anos, aquela agonia da criação na cabeça fez um silêncio, dormiria em paz.

 

Toninho

07/10/2026

Grato pela visita

 

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