BC_Botandoa cabeça para funcionar da Chica acontece todos os dias 5,15 e 25 para uma imagem postada no blog sementesdiarias. Participe e leia os amigos com links. Desejo uma feliz férias para Chica e Kiko onde haja muito Sol e paz.
BC_escrendo às quinta nesta semana vem do amigo Ibso do blog caminoutopia onde tem links dos amigos participantes, onde ele propõe que crie uma historia sobre o primeiro rascunho. Eu enveredei pela ficticia criação de uma canção.
O rascunho da criação.
Era
o ano de 1978 o país vivia sob uma ditadura, que já tinha sumido com muitos
artistas contra o regime. A censura era total e o silencio imperava, alguns
artistas buscavam na música, críticas ao sistema, mas sempre eram fichados e barrados
pelo sistema.
O
pobre Zé Carlos consertava rádio no bairro de Nazaré na cidade de Salvador. No
balcão, entre um chiado e outro dos rádios, ele teve um estalo. Uma melodia
inteira na cabeça e duas linhas que vieram redondas, perfeitas.
Ele
pegou um guardanapo de bar, e anotou. Mas, depois nada veio na cabeça para
continuar aquela música. Triste buscava inspiração e esta não vinha. Zé Carlos
ficou noites acordado. Acendia a luz, pegava o violão emprestado do vizinho,
tentava puxar o resto. Mas a música não vinha. Era como lembrar de um sonho
pelo cheiro.
Com
raiva e vergonha, amassou o guardanapo e jogou numa caixa de válvulas e
parafusos. "Se não vem inteira, não presta para nada esta música." Aquela
caixa enferrujada ficou por 23 anos num canto daquele cômodo.
No
longínquo ano de 2001 Zé Carlos cansado aposentou e fechou a loja de conserto
de rádios. O filho dele vasculhando as coisas da oficina, achou o papel
amarelado, quase pó, e colou na geladeira só porque achou a letra do pai
bonita.
Um
amigo violonista que vivia no Pelourinho viu aquele rascunho, e ali mesmo
sentado num banquinho de madeira colocou os acordes que faltavam, e a coisa tomou
forma e chegou até o Caetano Veloso, que logo assumiu gravar.
Quando
Zé Carlos ouviu numa rádio de Salvador pela primeira vez, ele não chorou,
porque estava fazendo sucesso. Chorou porque, pela primeira vez em 23 anos,
aquela agonia da criação na cabeça fez um silêncio, dormiria em paz.
BC_Botando
a cabeça para funcionar de Chica acontece todos os dias 5, 15 e 25 para uma imagem postada no blog sementesdiarias. Confira e participe.
Uma viagem obsoleta
O foguete em partida é, no fundo, um
espelho do nosso tempo: muita potência para sair, pouca paciência para ficar e resolver.
Poderíamos estar indo para frente, mas não se aplica esta metáfora, como também
aconteceu com os cata-ventos em verde e amarelo em tempos cinzas idos.
Para subir, ele precisa queimar
combustível descartado. Vai deixando sua fumaça e uma plataforma chamuscada. O
lançamento deixa mais um buraco no orçamento, um recurso que bem poderia ser
aplicado na saúde e educação. Ou quem sabe no combate à fome mundial ou contra
a degradação da natureza
O que mais estranha é esta busca
desenfreada pela colonização do espaço como Marte, ao passo que aqui nada se
aprendeu do cuidar da Terra. Porque no fim, o que importa não é até onde o
foguete vai, mas o que a gente decide não deixar para trás. E o foguete sobe e
cai num mar agredido com tantos lixos do espaço.
Escrevendoàs quintas-feiras nesta semana vem da Monica que sugere o seguinte: numa lista de vários Títulos extravagantes, escolher um para uma história limitada em 350
palavras. Minha escolha: A
apatia dos relógios quebrados.
Greve dos
Relógios.
imagem IA
Na pequena cidade de Tique-taque, todos
os relógios quebraram ao mesmo tempo às 15h15 para todo mundo, causando pânico
aos moradores.
Diante do inesperado o relógio da
padaria se recusou a assar pão no horário. "Pra quê?", ele pensou. O
do banco resolveu que não ia mais fazer compensação noturna. Já o velho relógio
da Catedral só ficava repetindo: "depois, depois”.
As pessoas foram contaminadas com a
apatia deles. Ninguém mais corria. O chefe marcava reunião e todo mundo
respondia: "quando o relógio quiser". Só o Seu Osmar, o relojoeiro,
tentava desesperadamente alguma solução de conserto.
Ele abriu um relógio e este resmungou:
"Deixa a gente em paz", disse o relógio. "A gente ficou 100 anos
trabalhando sem férias. Agora estamos em greve de ponteiros." E foi assim
que a cidade de Tique-taque virou a cidade mais atrasada.
Inesperadamente o relógio da Igreja, o mais
velho fez um pedido de aposentadoria. Desesperado com uma semana parado, o
corrupto prefeito de Tique-taque implorou pela volta do relojoeiro Seu Osmar.
Ele chegou, olhou para aquele relógio
maior, o chefe da greve, e perguntou: "E aí, o que vocês querem para
voltar?" "Queremos uma aposentadoria, uma rede do Ceará e suco de
frutos tropicais. "Suco?", Osmar estranhou.
"A gente passou a vida inteira na
invisibilidade, todo mundo tinha pressa. Só corre-corre, olha o relógio, tô
atrasado! Cansamos”. Seu Osmar entendeu. Foi até a prefeitura e pediu para decretar,
que todo relógio de Tique-taque agora trabalhasse só 4 horas por dia. O resto
do tempo ficaria balançando na rede tomando suco de maracujá."
Os
relógios se entreolharam. Pela primeira vez em 100 anos, deram um sorrisinho
torto. Um deles até tentou se mexer e fez... TIC!
A cidade de Tique-taque continuou atrasada com relógios felizes.
O
dia começou péssimo. A meteorologia prometeu: "Céu limpo, sem chuva".
Bernadete acreditou. Claro que acreditou. Levou chapéu, vestido leve e nada de
sombrinha para chuva.
Em
10 minutos, o céu desabou. O ônibus passou lotado e a molhou mais ainda quando
passou numa poça. Andou apressada pela calçada no seu salto alto. No celular
viu que tinha uma mensagem do chefe: “Cadê você?".
Bernadete
buscou abrigo num bar, para poder responder ao chefe e falar do temporal. O
café que pediu, caiu no chão, a fatia pão com manteiga também foi ao chão com o
lado da manteiga para baixo. Ela estava encharcada, o rímel borrado, olhou no
pequeno espelho e se sentiu uma panda triste na chuva.
E
aí ela começou a rir. Riu porque nada mais podia dar errado. Riu porque a
previsão errou de novo e ela errou em acreditar. Riu porque, no fundo, estava a
viver um dia gloriosamente desastroso.
Sorrindo
disse para o dono do bar: "today I
had a bad day", ele não entendeu nada, abanou a cabeça pensando ser
uma maluca na chuva. Ela riu ainda mais alto.
Naquele
momento, uma senhora, que estava junto ao balcão tomando café com bolo, vendo a
situação de Bernadete, ofereceu um pedaço de bolo de milho. Segundo ela era
para equilibrar o dia.
E
ali, ensopada, comendo bolo compartilhado daquela velha senhora, toda equipada
para a chuva, ela teve um acesso de alegria absurda. Então olhando para a
senhora disse: “Olha se hoje está ruim, pelo menos está muito engraçado, me dê
um abraço. ”
Bernadete
entendeu que este dia ruim, acabou virando a melhor história para ela contar à
sua família, quando retornasse à noite. Com tempo ruim também a gente dá
bom-dia e pode rir muito depois.