Botandoa cabeça para funcionar um lindo projeto da Chica de todos os dias 5, 15 e 25, apresenta a imagem de uma vidraça em dia de chuva no blog sementesdiaria, onde tem links dos amigos. Confira e apoie.
Escrevendo
à quinta-feira que para o dia 11 é proposto pela artesãodaspalavras, as imagens de tres janelas numa casa em um vale.
Um
chalé para repor as energias por vinte dias. Era inverno e uma névoa cobria
todo vale, que se via pelas janelas do chalé. Bebeto escrevia sobre o passado
deles.
Bebeto,
escritor, ocupava a mesa perto do vidro. Caderno aberto, mas a caneta falhando
de frio, era girada entre as mãos. Ao lado, a garrafa de vinho artesanal pela
metade, era o convite.
Da
Janela lateral via a Lia, chefe de cozinha, vindo da horta com três tangerinas
e folhas de alecrim. Usaria as cascas no vinho quente, para afugentar a
friagem. Era sua especialidade os drinks. Eles eram naturalistas.
O
vinho com casca de tangerina soltou vapor na chaleira. O cheiro trouxe a
infância para os dois junto da janela frontal ao vale. Bebeto apontou o vale
sumindo na neblina. Lembrou da bica d’água na casa da avó.
Lia
descascando outra mexerica, lembrou do fogão de barro da mãe, dizendo, que subia
com feijão-verde e descia com cheiro de alho no cabelo. A mãe ensinara sobre
comida de cada estação nas suas panelas de pedras.
Havia
um silêncio, mas poderia ouvir o correr das aguas do regato e os cantos
misturados dos pássaros. Dentro do chalé eles eram duas crianças crescidas com
lembranças vivas de um passado, movidos por gostos e sabores arraigados.
Bebeto
voltou ao caderno e escreveu a última linha do dia, onde dizia, que de sua
volta para escrever sobre o vale, mas que percebera, que o vale sabia mais
deles e escrevera sobre eles. Lia encostou a cabeça no ombro dele.
Naquela noite o jantar
seria simples com pão, queijo da serra, e as cascas de tangerina fervendo com
vinho, cravo e um fiapo de canela. Ele escreveria até os dedos doerem. Lia
olhava para o cesto com lã, lembrando da mãe. O inverno presente. A janela
translucida mostrava, que toda estação é uma poesia.
Toninho
09/06/2026
Grato pela leitura
segunda-feira, 8 de junho de 2026
Casa de Chão Batido
Participo com a Norma de sua série de Poetando, que nesta edição veio falando de saudades no seu blog pensandoemfamília. Lá ela inspirou em Toquinho e Vinicius de Morais com a canção Por onde anda você.
Casa de Chão Batido
Tenho grande saudade mansa
que mora lá longe numa roça,
de uma casinha branca simples
onde o tempo nunca apressa.
A água vinha de muito longe,
cantando em varas de bambu,
era fresca, descendo a grota,
o cheiro de mato sob céu azul.
Havia aceso um fogão a lenha
espalhava seu calor no recanto,
Penso na cozinha sem a senha
de um fumegante café pronto.
Casa de chão de terra batida,
o frio agredia os pés descalços.
lá a vida sem nenhum segredo,
vejo o sol riscando os caibros.
A simples vassoura de alecrim
varria a casinha com perfume.
Deixava a casinha perfumada,
espantava tristeza e azedume.
Hoje a vida tem muita pressa,
o conforto de piso, e torneira
Mas a doce saudade me leva
para aquela casa na capoeira.
Escrevendoà quinta-feiradesta semana é coordenada pela Dafne em seu blog sinedie, onde ela provoca falar sobre o orgulho LGBTQIA+ em alguma estrutura de texto que melhor convier. Abaixo minha participação.
Guarda-Chuva de Junho
Era assim todo mês de junho naquela rua. O lojista Manolo ao abrir sua lojinha
de reparos pendurava um guarda-chuva colorido na porta. Acontece que não chovia,
apenas esfriava demais.
Um dia Juliete, 16 anos, parou na
frente da loja. Ela tinha acabado de contar para família que era trans. Um
imenso pesado silêncio invadiu a mocinha, que se sentiu rejeitada e abandonada.
Vagou pela rua e parou junto a lojinha
do Manolo sem nada para consertar a não ser sua decepção. Ali ficou olhando com
fixação um colorido guarda-chuva.
O Seu Manolo, 83 anos, percebeu o vazio da jovem, limpou as mãos no avental e aproximou-se.
E a convidou para entrar, dizendo, que lá dentro não chovia. Sem perguntas, ofereceu
suco, falou do tempo, mostrou fotos antigas com o falecido marido de mãos
dadas, explicando que era inaceitável pela sociedade conservadora mineira.
Explicou que na sua juventude as cores eram rígidas e eles ocultavam as cores
vivas principalmente nas roupas e utensílios. Apontando para o guarda-chuva
dizia que ele ficara esquecido e calado dependurado num gancho na sala, jamais
poderia ficar na porta da lojinha.
A jovem Juliete suspirou e sorriu em meio àquela tristeza envolvida, caminhou
até Manolo e o abraçou numa espécie de gratidão pela atenção e tentativa de lhe
resgatar daquela solidão. Assim foi até ao balcão e pegou um adesivo de arco-íris
e colou na sua blusa como destaque.
Agora todo mês de junho Juliete vai até à lojinha, para lembrar de um lugar
onde primeiro se sentiu abrigada e respeitada. Ela entendeu, que orgulho não é
gritar, mas deixar a porta aberta e andar livremente com seu guarda-chuva à
mostra, sem medo de ser feliz, carrega a bandeira colorida todo o mês de junho.
Versosque guardam promessas é um convite de nossa amiga Lúcia todos os dias 10, 20 e 30 para interação em qualquer estrutura de texto sobre os salmos no seu blog feepoesia. Abaixo minha participação em prosa.
Salmo
19,1
"Os
céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas
mãos."
Basta
que eu olhe para cima. Não precisa de sermão nem de placa luminosa. O céu faz
isso todo dia. Um olhar para a natureza é olhar nos olhos de Deus. A natureza é
Deus.
A
cada estrela que pisca, a cada nuvem que desliza no firmamento, a cada noite que
vira dia, a chuva que levemente deixa a terra fértil, a criação inteira vira uma grande tela silenciosa. Não grita, mas não dá
para ignorar: tem uma Mão por trás disso tudo, e sabemos é Deus.
O
universo é uma assinatura de Deus no tempo. E o firmamento, seu poema mais lindo, ainda sendo escrito em luz.
Os raios
de luz no horizonte furando as nuvens depois da noite. O instante de dourar o dia no Sol poente exatamente essa ideia: promessa
cumprida, dia terminando e novo dia começando.
O Salmo
19,1 vem como um lembrete, que a gente nunca está sem um sinal de Deus por perto. Seja
nas estrelas ou no primeiro raio de sol. Deus por nós o tempo todo.