Escrevendoàs quintas que nesta semana vem com convocatória de somosartesanosdepalabras onde pede:Como
são seus personagens favoritos? Crie uma historia sem mostrar as qualidades, mas deixando subentendidas.
O Banco da Praça
Desde criança, Juca e Mulato dividiam tudo. O
picolé, a merenda, a caixa de lápis colorido, a bicicleta emprestada e os
segredos no fundo do quintal.
Juca era meio falastrão. Falava com todo mundo.
Se metia na briga dos outros para separar, vendia os pastéis de dona Alexandrina,
contava causo até para as paredes. Mulato era o oposto. Observava muito.
Consertava a bicicleta do Juca sem ele pedir e deixava na porta de sua casa.
Cresceram ali no vilarejo Sapucaia. Tempos depois o
Juca formou-se professor na cidade próxima. Os alunos na escola sempre diziam:
“lá vem o professor que fala muito”. Já
o seu amigo Mulato virou mecânico com referência, montou uma oficina e a abria
às 6h religiosamente sem nenhum alarde.
Um dia a dona Mariazinha, mãe de Juca, adoeceu. Ele
sumiu das redes sociais, da escola e até do bar no fim das tardes. Ficou dias
no hospital, sem dizer nada para ninguém. Na terceira noite, Mulato foi ao
hospital com uma refeição, uma coberta e algumas frutas.
Foi até o leito, trocou
o soro de lugar, ajeitou o travesseiro da dona Mariazinha e foi embora sem
fazer discurso. Só deixou um bilhete: “Eu estou aqui amigo"
Meses depois, com dona Mariazinha recuperada, Juca voltou
a dar aula no vilarejo Sapucaia. No primeiro dia, levou os alunos para a praça.
Sentou no banco velho onde ele e Mulato brincavam para contar uma história.
Falou por mais de 40 minutos. No fim, olhou para o lado. Mulato estava lá,
calado, descascando laranjas com seu canivete.
Após terminar pegou a laranja e
foi dividindo os gomos com Juca, como fazia a muitos anos atrás no vilarejo
Sapucaia.
Escrevendoàs quintas nesta 08 de julho vem com convocatória da Campirela, que pede que penetremos no mundo das crianças com brincadeiras de verão.
O
Verão da Rua Sem Saída
O
verão começava quando a escola fechava o portão desejando boas férias. E
na Rua Sem saída o verão não era só calor. Era barulho desde as 7 da manhã já
tinha alguém gritando: "Ei, hoje tem queimada!" E
antes das 8, a rua inteira virava quadra. Dois chinelos marcavam o gol e a
calçada era o mundo.
As
manhãs com sol quente. A gente corria descalço na rua de terra, que recebera
uma imitação de asfalto. O chão queimava a sola dos pés, mas ninguém
ligava. Na rua a agua era sagrada. Seu Zé João regava seu jardim, mas
ninguém podia receber um jato daquela agua. O tempo passava e só parava, quando
a mãe de alguém gritava lá da janela: "Vem almoçar!"
Pela
tarde era hora de olhar para o céu. Pipa no alto, linha esticada. Cortar outra
pipa era a torcida como se fosse a última pipa do mundo. Seu Zé João abria a
torneira e colocava a mangueira no muro e pronto: virava piscina. Os
meninos viravam peixes e todo mundo ria com a água batendo na cara. Depois
do jogo, todo mundo sentava no meio-fio. Alguém trazia picolé de 50 centavos.
Pelas
noites de pouca luz, começava a brincar de Esconde-esconde. "Um, dois,
três... já!" E as crianças sumiam atrás de muro, pé de manga e dos poucos carros
na rua. Depois ouviam os causos e contos das velhas solteironas
sobre mula-sem-cabeça, de fantasma na Quaresma, e de tesouro enterrado no
quintal.
O
verão acabava, as aulas voltavam. Mas a Rua Sem saída guardava
tudo. Porque
infância no verão não envelhece. Fica morando no cheiro de manga madura, no
grito de "gol!", e na água fria da mangueira escorrendo no rosto.
Botando
a cabeça para funcionar é uma proposta da nossa querida Chica todos os dias 5, 15 e 25 com uma imagem propria ou colhida de amigos, para expressar em qualquer tipo de estrutura de texto lá no seu blog sementesdiarias, onde temos links de outros participantes. Confira e participe.
Quando o sino
emergiu.
Durante
anos a torre da igreja ficou calada lá no fundo da barragem. Só o peixe e o
lodo ouviam o que restou do sino. Quando a água subiu, na construção da represa
de Sobradinho, levaram cidades inteiras². Casas, rua de
paralelepípedo, praça. Deixaram só o topo da torre para fora, como um dedo
apontando para o céu. Depois nem isso. Engoliu tudo sob os olhares tristes dos últimos
moradores.
O
povo se espalhou. Uns choraram, outros aprenderam a chamar de "lago"
o que antes era quintal. O lago tinha muito peixe e algumas diversões foram
criadas sobre as aguas e suas margens.
E
então veio a seca que amedronta os sertanejos, gerando os retirantes. Primeiro
a margem rachou. Depois apareceu o campanário, sujo de limo, mas de pé. Havia
nisso uma teimosia. Outros acreditavam em alguma profecia de um tal de Antônio
Conselheiro¹. A cruz ainda
torta, brilhou naquele dia como um espelho sob o Sol.
Muita
gente voltou para a margem só para olhar. Crianças perguntaram por que tinha
uma igreja no meio da lama. E por um instante o tempo voltou ao plural: eram
muitas memórias, muitas missas. Houve até batizados e crismas de crianças nas
duas margens do lago.
A
água vai voltar, todo mundo sabia que a barragem de Sobradinho encheria de
novo. Mas agora eles entendiam que, tem coisa que afunda e não some, pois fica
na história. É como se a torre fosse descansar até uma nova estação.
Toninho
05/07/2026
Grato
pela leitura.
Nota 1
A famosa frase "o sertão vai
virar mar e o mar vai virar sertão" é uma profecia popularmente atribuída
a Antônio Conselheiro, líder religioso do movimento de Canudos, no
interior da Bahia.
Nota 2
Cidades inundadas na Bahia pela
represa:Pilão Arcado, Casa Nova, Remanso e
Sento Sé,
Versosque guardam promessas é uma BC idealizada pela amiga Lúcia para todos os dias 10, 20 e 30 com uma passagem biblica no seu blog feepoesia. Confira outros amigos por lá.
Escrevendo
as quintas desta semana apresenta a imagem de uma grade agredida pelo tempo e tomada pela vegetação, o que esconde esta grade é a convocatória que vem do blog somosartesanosdapalabra.
A
Casa que Virou Mata. Ninguém mais lembra quem morou ali.
O
portão de ferro, antes verde, virou laranja de ferrugem. As dobradiças gritam
quando o vento passa, mas ninguém empurra. O mato tomou conta. Trepadeira
abraçou a varanda, cobriu as janelas, escondeu o número. Só o telhado ainda
escapo.
Dizem
que foi a Dona Lourdes a última moradora. Criava orquídeas e esperava carta do
filho que foi tentar a vida em Salvador. As cartas pararam. As orquídeas ficaram.
O filho nunca voltou, mas tudo junho a casa se enche de flores roxas que ninguém
plantou.
Os
meninos da rua juram que à noite a luz da cozinha acende. Mas não tem energia
cortada há 20 anos. É só a lua batendo na ferrugem da geladeira velha, que
ainda está lá, de porta aberta, como boca contando segredo.
Outro
dia a prefeitura mandou derrubar. Chegou trator, chegou homem de prancheta. Só
que o trator atolou. O mato segurou. As raízes tinham virado alicerce. O homem
de prancheta escrevera que o imóvel havia sido tomado pela natureza e foi embora.
Hoje
a casa não é mais casa. Virou estufa. Virou ninho. Virou sombra para quem volta
da feira. Passarinho faz morada na chaminé. Gato de rua dorme no que restou do
sofá. E uma vez por ano, em dia de São João, aparece uma orquídea nova na
janela da frente.
Abandonada?
Não.
Ela
só trocou de família. Agora é mãe de tudo que precisa de abrigo.