O Banco da Praça
Desde criança, Juca e Mulato dividiam tudo. O picolé, a merenda, a caixa de lápis colorido, a bicicleta emprestada e os segredos no fundo do quintal.
Juca era meio falastrão. Falava com todo mundo. Se metia na briga dos outros para separar, vendia os pastéis de dona Alexandrina, contava causo até para as paredes. Mulato era o oposto. Observava muito. Consertava a bicicleta do Juca sem ele pedir e deixava na porta de sua casa.
Cresceram ali no vilarejo Sapucaia. Tempos depois o Juca formou-se professor na cidade próxima. Os alunos na escola sempre diziam: “lá vem o professor que fala muito”. Já o seu amigo Mulato virou mecânico com referência, montou uma oficina e a abria às 6h religiosamente sem nenhum alarde.
Um dia a dona Mariazinha, mãe de Juca, adoeceu. Ele sumiu das redes sociais, da escola e até do bar no fim das tardes. Ficou dias no hospital, sem dizer nada para ninguém. Na terceira noite, Mulato foi ao hospital com uma refeição, uma coberta e algumas frutas.
Foi até o leito, trocou o soro de lugar, ajeitou o travesseiro da dona Mariazinha e foi embora sem fazer discurso. Só deixou um bilhete: “Eu estou aqui amigo"
Meses depois, com dona Mariazinha recuperada, Juca voltou a dar aula no vilarejo Sapucaia. No primeiro dia, levou os alunos para a praça. Sentou no banco velho onde ele e Mulato brincavam para contar uma história. Falou por mais de 40 minutos. No fim, olhou para o lado. Mulato estava lá, calado, descascando laranjas com seu canivete.
Após terminar pegou a laranja e foi dividindo os gomos com Juca, como fazia a muitos anos atrás no vilarejo Sapucaia.
Toninho
15/07/2026
Grato pela visita




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