Uma vida no
quase.
Otávio encontrava Ludmila pontualmente todos
os dias na varanda às 6 da tarde. Ela chegava com um sorriso largo e Otávio com
duas xicaras de café, mesmo sabendo que Ludmila não gostava de tomar café além
do café da manhã. Alegava que lhe tirava o sono.
O encontro era
sempre cheio de risos de coisas bobas. Eles gostavam de falar do futuro como
quem fala de coisas bonitas, distantes, possíveis. Ela acreditava num tal dia e
Otavio acreditava na realização em todos estes um dia dela. Mal sabiam eles, do
que o destino tecia suas teias no silencio dos dois.
Mas aquele "um
dia" nunca virou hoje. Devido conclusão de faculdade Ludmila foi para
outro estado no Sul do país, convidada para outro trabalho, onde criaria outra
história. Deixou Otávio ali, que por vários dias ainda ficava na varanda com um
café na xicara a esfriar na solidão.
Ainda hoje,
quando Otávio passa na rua da sua casa, dela
recorda apenas uma sombra na calçada. Lembra, de como ela inclinava a
cabeça, para ouvir a risada que começava baixinho. E também a candidez de algo que quase foi. Quase
foi namoro. Quase planos. Dolorido foi pensar no quase “unidos para sempre”.
Consciente que
nada foi. Mas foi tão bonito o suficiente, para ele guardar com carinho estas
lembranças da Ludmila. Otávio aprendeu, que tem coisa, que não precisa
acontecer efetivamente, para deixar marcas. Às vezes "quase" é o nome
que se dá para aquela saudade, que não dói mais. Que ficou nas paredes da casa
de sua memória.
Toninho
29/07/2026
Grato pela leitura


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