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quinta-feira, 6 de abril de 2017

Aquele vestido branco



Quem passava pela rua via um vestido numa varanda. Pela manhã e tarde uma velha senhora a espreita-lo e acaricia-lo com mãos tremulas, como se fosse à pessoa que o vestira. Parecia ritual, quando o sol se punha surgia um som de valsa em uma vitrola e o vestido era retirado do varal abraçado como delicadeza. Desfilava com ele colado ao corpo como numa dança. Não havia tristeza na cena.

Na manhã com os primeiros raios solares ela aparecia com o vestido pelas mãos como uma mãe a embalar seu filho. Ali na varanda ela ficava momentos nesta postura, até que o pendurava em uma das cordas do varal. Lançava um ultimo olhar e desaparecia na solidão de seu casarão.

Numa tarde de Outono ela não apareceu na varanda, para retirar o vestido, o que gerou curiosidade e preocupação aos vizinhos, acostumados com a cena ao som de uma valsa com som distorcido de um “long play” arranhado de tanto uso. A velha senhora morava sozinha e às vezes se via outra senhora estranha à rua, entrar e ficar horas no casarão geralmente pela manhã após o ritual. Naquele dia ela também não aparecera e a noite cobriu o casarão, sem que o vestido fosse retirado do varal.

Ao aproximar-se da meia noite, um vizinho percebeu um facho de luz na varanda.  Assustado viu o vestido deslizar no varal de uma extremidade para outra, como se valsasse. Gritou para a mulher que medrosa se recusou. De repente os acordes de um piano ecoaram na madrugada nevoenta. Uma ventania estranha arrancou o vestido e desapareceu pela rua para horror do vizinho, que gritou loucamente na madrugada silenciosa.

Na manhã seguinte contou para a vizinhança descrente do fato, mas estranhando a falta do vestido na varanda. Próximo do meio dia um movimento na porta do casarão chamou a atenção da vizinhança. Um policial saiu da casa e disse que havia um pedido de socorro na central, mas ninguém se encontrava no casarão, apenas um piano estragado e uma vitrola velha com vários discos empoeirados de valsas, além de um encardido e surrado vestido jogado sobre o braço de uma cadeira de balanço. As pessoas se entreolharam e aquele vizinho foi internado numa clinica psiquiatra.

Toninho.
05/04/2017

Outras inspirações minhas: Momentos&inspirações

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Conto na participação da BC_botando a cabeça para funcionar que a Chica promove aqui:chicabrincadepoesia participe é livre.