quarta-feira, 2 de setembro de 2026

O Moedor de café.

 

O Projeto Escrevendoás quintas no blog do amigo Luferura vem com a proposta de uma máquina, que nos leve ao passado e nos devolva ao futuro com nossas esperanças, medos e sonhos. Confira os participantes. Minha maquina um moedor de café.

O Moedor de café.

Atrás da porta da cozinha, preso por um prego torto, ficava o moedor de café do meu pai. Ferro fundido, madeira gasta. Ninguém usava. Só atrapalhava a porta bater, mas era para os meninos uma diversão o uso semanal.

Hoje a porta emperrou de novo. Eu fui tirar o moedor do caminho e, sem querer, girou a manivela. Créc, Créc, Créc. Cheirinho de café queimado subiu. Não era café. Era o tempo moendo as minhas belas lembranças.

A cozinha rodou. Quando abri os olhos, a porta era a mesma, mas a tinta era nova. O moedor estava no mesmo lugar, só que brilhando. E uma voz lá fora pude ouvir:

- Deixa esse moedor quieto, menino!

Meu pai. De chapéu, com a camisa de brim caqui com logomarca da empresa Vale. Moía o café de verdade, na mesa. Cada volta da manivela soltava uma fumacinha que era uma cena comum naquelas casinhas da Vila Operaria todos dos os fins de tarde, quando os homens voltavam da mina de minério.

Nesta visão repentina entendia que cada grão que ele moía era um dia passado.

Eu disse para ele, que ia usar o moinho para moer para frente. Ele apenas sorriu, dizendo que “para frente não tem grão ainda, meu filho”. Só tem pra trás. E se moer tudo, acaba.

Eu peguei a manivela e girei com força e rápido, com saudade apressada. O cheiro ficou cada vez mais forte. Senti-me tonto ao som do Créc, Créc, Créc.

A porta bateu sozinha, acendeu os meus medos de assombrações.

Eu ali parado, com a mão na manivela do moedor ainda quente na mão. Na caixinha de baixo, onde deveria ter pó de café, tinha só uma coisa: um grão inteiro, ainda por moer. O dia de hoje.


Toninho

02/09/2026

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sábado, 29 de agosto de 2026

Barco dorme

 

BC_uma imagem em 140 caracteres vem do blog devaneiosedesvarios de nossa amiga Marina de todo fim de semana para uma imagem com descrição. Participe e leia os amigos. Para a linda imagem abaixo da Marina deixo hoje dois olhares.


Olhar I

Numa real calmaria um barco dorme

Na restinga sal e sol foi-se a maré.

Maré foi e volta, o sonho não se foi.

Sede de navegar o barco balança.

 

Olhar II

 

Infinita angustiante espera

A corda frouxa, casco gasto

No raso ancorado descansa.

Quem vive de maré sabe da espera.

Navegar a alma se refaz.

 

Toninho

29/08/2026

Grato pela visita


quarta-feira, 26 de agosto de 2026

O olhar materno.

 

Escrevendoás quintas deste dia 27 vem com uma proposta da Monica no seu blog neogeminis onde ela apresenta a imagem acima e pede que em primeira pessoa, possamos escrever sobre o impacto de um olhar, ("Seja quem for o dono ou a dona desses olhos e sejam quais forem as circunstâncias")


 

O olhar materno.

Eu não lembro, de todas as palavras que ela me disse. Mas eu lembro de todos os olhares dela lá naquela vila operária onde cresci menino livre com vento nas costas. Uma rua de terra vermelha, de pouca luz. Lá as casas eram iguais e os vizinhos eram amigos. Cresci lá, sob os olhos de todos e principalmente de minha mãe.

Quando eu era pequeno e caía na rua jogando bola, machucava todos os dias, mas ela não corria desesperada. Ela me olhava firme nos olhos. Era um olhar que dizia: "levanta seja homem". E eu levantava, mesmo chorando.

Quando adolescente fazia coisas erradas, esperava dela repreensão e gritos. Ela só me olhava por cima dos óculos, na cozinha. Não tinha raiva. Tinha decepção e tinha amor, ao mesmo tempo no olhar. Aquele olhar por certo me corrigiu, pois tinha vergonha de vê-lo triste.

E quando eu fui aprovado para a escola profissionalizante (SENAI), quando voltei para casa com a farda fornecida pela companhia (Cia Vale do Rio Doce) cheio de orgulho, com um riso largo no rosto, ela me olhou da porta. O olhar dela já dizia: "eu sempre soube". Apenas me abraçou sem dizer nada.

Quando ela viu no jornal, o meu nome na lista dos aprovados no vestibular de engenharia, de seus olhos duas lagrimas compridas escorregaram. Olhou-me bem nos olhos e só disse: “eu tinha certeza.

Hoje eu entendo. Minha mãe nunca precisou ser forte na voz. Ela foi forte no olhar. O olhar dela foi meu mapa, meu freio e meu empurrão.

E até hoje, quando a vida me encara feio, eu lembro daquele olhar. E sigo. É porque, olhar de mãe a gente carrega para vida toda. Eu guardo esse olhar como um tesouro aqui no lado esquerdo do meu peito. Um olhar que é guia.


Toninho

25/08/2026

Grato pela visita.

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

O Céu mora no sertão

 


BC_Botandoa cabeça para funcionar, esta BC nasceu de uma brincadeira da Chica com seu neto Neno em leitura de imagens e hoje diante da partida do Neno para seguir estudos, ela trouxe esta imagem para externar sua já saudade. A BC acontece todos os dia 5,15 e 25 no seu blog sementesdiarias. Confira os olhares de outros amigos com link por lá.


O Céu mora no sertão

Vejo as asas em pleno voar.
O meu olhar vira em poesia.
Lá em cima é tão bom sonhar.
Mas lá embaixo é nostalgia.

Ver estas asas cortando o azul
eu aprendi uma singela lição.
Como é pequeno este nosso eu.
Mas tão imenso é o coração.

Uma nuvem passa risonha
por baixo da asa no flutuar.
Despedida triste em Congonha
com meu medo e meu sonhar.

Quando no sertão ele pousar
sentirei o chão voltar a ser chão.

Ficará na alma um recordar.
Talvez o céu mora lá no sertão.


Toninho

24/08/2026

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quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Mala misteriosa.

BC_Escrevendoás quintas desta semana convoca com base na mensagem acima uma inspiração para a imagem acima. Proposta vinda da Patricia e Rosana no blog somosartesanosdaspalavras onde encontra links de outros participantes. Confira. 

 
 

Mala misteriosa.

 

O voo pousou em Salvador às 22h. Cansado, eu fui direto na esteira e peguei "minha" mala marrom igualzinha à minha. Só em casa percebi o erro.
Abri ansioso: nada de roupas. No lugar tinha um rolo de papel higiênico jumbo gigante, um descascador de legumes azul neon e uma capa de chuva vermelha.

Em pânico. Cadê minhas roupas, meus livros e meu notebook com todas as minhas postagens de 16 anos de blogosfera? Respirei e liguei para a companhia aérea.

 

"Senhor, temos uma passageira aqui com uma mala cheia de livros, roupas e um notebook. E ela está desesperada, vamos marcar um encontro no aeroporto."

Era a Dona Lúcia, 68 anos, voltando de visitar a filha em São Paulo. Ela tinha comprado o papel higiênico na promoção, o descascador porque "o dela quebrou" e a capa de chuva por causa de um alerta sobre uma previsão de temporal.

Marcamos de trocar as malas no aeroporto no dia seguinte. Cheguei primeiro.
Ela chegou depois com a minha mala e um pacote e foi dizendo, que "Trouxe um presente pelo susto". Dentro do pacote: um caderno novo.


"Vi que você escreve. Perdi meu marido ano passado e comecei a escrever para não enlouquecer. Talvez te inspire a escrever uma história."

Peguei minha mala de volta. Roupas amassadas, livros com minhas poesias e o notebook intacto. Mas ganhei também a história da Dona Lúcia, o descascador azul que ela insistiu para eu ficar, e a certeza de que às vezes a mala errada, pode lhe render uma nova amizade com uma pessoa amável.

Hoje o curioso descascador de legumes está na minha cozinha.
E no blog tem uma nova crônica de malas trocadas.

 

Toninho

18/08/2026

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terça-feira, 11 de agosto de 2026

Greve no Metrô de São Paulo

 

Projeto Escrevendoás quintas nesta semana vem com proposta de Patricia e Rosana no blog somosartesãosdepalavras, onde elencaram algumas manchetes de jornais, para serem escolhidas e criadas as historias. 

Minha escolha:  Huelga en Londres por un fantasma.

Adpatei para a situação brasileira


Jornal a Folha do Tietê

*Greve no Metrô de São Paulo devido a um fantasma *  


Maquinistas param as linhas Azul e Vermelha após aparição de fantasma na estação da Praça da Sé. Com isso, o horário de in rush virou caos nesta quinta-feira. Metade do metrô parou às 5h da manhã. Motivo? Os funcionários entraram em greve até resolverem a situação da estação Sé.

Tudo começou quando a maquinista Julieta viu um homem de terno antigo e chapéu Panamá branco andando na contramão do túnel. "Ele estava com uma lanterna e um crachá. Parou, olhou pra mim e falou: _'Moça, cadê meu vale-transporte atrasado?'", contou Julieta, ainda assustada.

Comunicado ao sindicato, este soltou uma nota alertando sobre o estresse por que passava os operadores e que o fantasma se tratava de Joanito, ex funcionário da Companhia de metrô, que morreu esperando ganhar uma causa trabalhista na justiça, por isso devia estar vagando pela linha do metrô. Certa vez um faxineiro relatou que viu uma vassoura andando sozinha.

Gente curiosa passou a frequentar a Praça da Sé, ambulantes com seus pontos de vendas de lanches, outros vendendo velas e tinha até ponto de apostas, para ver quem era o fantasma. O bispo foi chamado para benzer a estação. Estableceu-se um centro de comercio variado na Praça, misturado com jornalistas e cinegrafistas, para registrarem a aparição.

Um grupo levou um pai-de-santo, que buscaram em Salvador de aviãao. Após seus demorados rituais ele disse que Joanito já estava em paz e que se retiraria dos trilhos. A maquinista Julieta devia acender uma vela branca todos os dias antes de suas viagens. Os presentes afirmaram, que sentiram um forte cheiro de enxofre e um apito longo vindo dos trilhos.

No dia seguinte o Sindicato declarou o fim da greve. Os trens voltaram nas Linhas Azul e Vermelha. Agora na Praça da Sé foi instalado um banquinho de cimento com o nome de Joanito, nosso funcionário do além.

No outro dia a manchete ironica no jornal dizia, que até fantasma faz greve na cidade de São Paulo, que esta cidade não brinca em serviço, nem depois da morte.

 

Toninho

11/08/2026

Grato pela leitura