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quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Itabira: Uma sombra de saudade





Uma lembrança a minha cidade Itabira-MG no seu aniversário de 170 anos de emancipação em 09/10/2018.

De Itabira carrego saudades, que me seguem como sombras. Saudades de minha catedral com sua praça com o obelisco, que chamávamos de pirulito, por onde as procissões contornavam, ou referência para separar homens de mulheres na procissão do Cristo Morto na Semana Santa. No adro um paredão com inúmeros furos onde se escondiam as andorinhas, mais tarde expulsas pelos pardais na usurpação dos ninhos para reprodução. Minhas andorinhas nunca mais apareceram.
Saudades das procissões na Semana Santa, mãos queimadas pelos tocos das velas que escorria. Vivia uma profunda emoção, lágrimas nos olhos ao ouvir o Sermão das Sete Palavras na procissão de Encontro na voz emocionada do Pe. Lopão(José Lopes) e daquele dilacerante canto entoado pela Verônica, eu vivia tudo, sentia, sofria na pele.


Saudades das ruas de pedras de minério de ferro escorregadias, que me fazia perder as pontas dos dedos no futebol diário. Saudade da dor, de ver o dedo sendo curado por minha mãe, com apenas sal e limão. Doía, mas no outro dia estava curado. Saudades das risadas dos passos desengonçados das moças quando perdiam os altos saltos nas pedras de minhas ruas.
Saudade do brilho do Pico do Cauê a sua imponência azul naquela serra, onde todos os dias, assistia o tingir do céu da poeira vermelha após as explosões com dinamites, que tremiam o chão e agitavam meu coração de menino, que achava linda toda àquela agitação de sirenes, pessoas correndo, cachorros latindo, vidraças vibrando, às vezes quebrando, eram como se o Pico gritasse como um leão na barriga daquela serra. Eu menino nem sabia que ali estava processando esta saudade que agora sinto.

Saudade dos comícios animados e engraçados dos dois partidos, de andar de carroceria de caminhão de bairro em bairro e eram tão poucos, que se faziam numa noite, menino seguindo gente grande na noite sem perigo da cidade, tudo era festa.


Saudade de colher as Gabirobas na serra de frente de casa onde hoje fica a casa restaurada de Drummond. Saudades de nadar nos rios e lagoas sem medo da xistose, passear pelos pomares na procura de Jabuticaba na chácara da Cia Vale do Rio Doce ou lá na fazenda Pontal da família de Carlos Drummond. Ah, esta saudade que sinto, desta Itabira que me faz hoje viver nesta distancia, coletando fragmentos, que minha mente insiste em servir no prato de barro, que buscava naquele brejo que não mais existe.
Ah, eu não queria sentir esta saudade dolorida, mas não tem jeito, pois cada vez que me vêm estas lembranças, há uma certeza, que há uma degradação pelo progresso sem controle de processos, nada preservou, resta apenas esta parede sem brilho, este buraco, esta serra careca, esta velha Maria Fumaça sem apito, sem fumaça, mal cuidada na entrada de minha cidade. São estas constatações que doem muito mais do que estas recordações que agora me acompanham.

Ah, eu não queria, mas como podem ver, eu não sei viver sem estas lembranças de uma Itabira que talvez só exista em minhas memórias, mas como dói.






Toninhobira


16 comentários:

  1. Bom dia:- Dentro de nós existe a saudade de algo ou de lugares onde já fomos felizes. É da lei da vida.
    .
    * Amor em frio embaraço *
    .
    Votos de um dia feliz.

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  2. Há tantos motivos que tão bem justificam tuas sausades de Itabira. Coisas tuas, momentos de aconchego...Tive que rir imaginando a cura com sal e limão( ou mata ou cura,era assim,rs!!!)

    Linda homenagem e parabéns! abração, tudo de bom,chica

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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    Respostas
    1. Bom dia, querido amigo Toninho!
      Que linda homenagem à sua terra amada!
      Não podia passar em branco, claro!
      A força está no sangue... também amo o RJ, apesar dos pesares... É muito forte e a música escolhida revela essa garra, esse caçar da noss essência...
      Amo ouvir este vídeo e mexe demais comigo, um dos meus preferidos.
      Cidade pequena é festa sim, se anda com celular... rs... conversa com as pessoas como se fossem gente... não se tem medo, sei bem como é...
      Gostei dos saltos altos e o desengonçar das moças que não têm onde sair e mostrar elegância e roupas...
      Aqui também a Missa é o lugar de desfile de modas, rs...
      Ah! Saudade dilacerante que nos corroi e nos enche de vigor ao mesmo tempo por sentirmos que nossa origem foi bem fecundada e temos histórias para contar...
      Sinta sim muita saudade e se agarre em Deus que tudo sabe de nós, meu amigo!
      Eu vivo de saudade em saudade de onde morei e cresci...
      Deus o abençoe muito!
      Bjm fraterno e carinhoso (ao estilo mineiro de ser) de paz e bem

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    2. "...procissão de Encontro na voz emocionada do Pe. Lopão(José Lopes) e daquele dilacerante canto entoado pela Verônica, eu vivia tudo, sentia, sofria na pele."
      Não dá para viver este momento e não chorar muito... Aqui tem todo ano e é uma emoção de cortar a alma... Já fiz na encenação o papel de uma das viúvas há uns anos... Foi um lindo momento e ainda bem, que, muda, só chorava... Bjm de felicitação pela sua cidade natal e grata pela partilha tão humana. A blogosfera nos enriquece muito...

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  4. Boa tarde Toninho,
    Tão belo o seu texto marcado pela saudade de sua amada cidade desses tempos idos, em que o coração da mesma era repleto de movimento, sons e outros que o coração registaou para sempre.
    Pena que não tenha sido preservada, mas as suas memórias, bem vivas, a guardarão intacta no seu coração pelos tempos fora.
    Um beijinho e continuação de uma semana muito abençoada.
    Ailime

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  5. Saudades da terra onde por muito tempo se viveu, doem...
    Linda cidade, que observamos por esta bonitas imagens. Parabéns a Itabira pelos seus 170 anos.
    Um abraço meu amigo.
    Élys

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  6. Saudades tao bem descritas nesses versos, a emoçao em cada frase, é tao lindo seu modo de expressar seus sentimentos...

    Meu amigo, desculpe a ausencia, mas, as vezes a vida nos obriga a dar uma pausa. Espero que vc se encontre bem.

    Beijos...

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  7. Olá Toninho querido


    Adoroi essa música do Milton Nascimento.
    E que saudade mais gostosa, de coisas boas e bem vividas.


    Beijos
    Ani

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  8. Obrigada pelo som e por dado a conhecer!!!bj

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  9. Querido Toninho
    Sabe que me comoveu?
    Li tudo, fechei os olhos e lembrei-me do meu torrão natal, agora tão diferente.
    Gostei imenso de ver as fotografias e de ouvir a canção.
    Obrigada por estes momentos.
    Um beijinho
    Beatriz

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  10. Compartir añoranzas con todo lo que significa el comienzo de la vida, momentos que no vuelven a repetirse porque son diferentes las circunstancias, los lugares y las personas y finalmente cuando volvemos al lugar que tanto hemos amado nos lo encontramos tan cambiado que ya no es de ninguna manera el paraíso que nosotros vivimos. Creo que es en síntesis el relato que has compartido y puedes creer que te comprendo bien porque a mí me ocurre lo mismo con Asturias que es el lugar donde nací y de donde era mi familia, me has conmovido.

    Ha sido un placer leer tu interesante y emotivo relato. Un abrazo.

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  11. Querido Amigo.
    São tão sentidas as suas saudades - que eu tenho acompanhado - que também as sinto de verdade.
    Realmente, o mundo era muito melhor quando éramos novos... muito menos gente, muito menos poluição...
    Impressiona-me as andorinhas terem desaparecido.
    Elas fazem os ninhos com barro... seria pelas águas estarem contaminadas?
    O seu pesar vibra com tanta intensidade - ora com pungência, ora com saudade e ternura que nos sentimos a vivenciar as mesmas situações... gosto de as ler. Desabafar com os amigos ajuda, estou sempre a seu lado.
    Parabéns à inesquecível Itabira e que Deus seja mais misericordioso com ela.
    Grande e terno abraço, meu Amigo.
    Dias reflexivos em tranquilidade...
    Beijo
    ~~~

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  12. Linda cidade. Não conheço .Suas saudades comovem,amigo.Fotos lindas.
    Minha vida ainda atribulada com cirurgias de meu marido ainda este ano, mas sempre posto algo porque me faz bem, acalma.
    Obrigada pela visita e um feriado de paz para você
    Beijos sabor carinho
    Donetzka

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  13. Oi Toninho! Eu tambem sinto saudades de muitas coisas do meu tempo de criança, e as ruas de terra, eram meu paraíso. Saudades daquela inocente terra vermelha, onde apenas a falta das relvas verdes e o sapatear constante avermelhava o chão. não era pobreza, e sim os tempos lindos que se foram. Ainda não conheço Itabira, para vergonha minha, e almejo conhecer em breve. Estamos Com "Desertos Minas", la´no blogue. Grande abraço, e obrigado por essa terna leitura , companheiro e amigo poeta de minas.

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  14. Toninho meu amigo nós precisamos de você. A situação da minha filha é muito delicada. Nós precisamos da sua oração. da oração da sua família pedindo o alivio da dor cruel que minha filha está sentido e orem pela vida dela. Eu não sei e nem quero viver sem ela. Por favor orem por ela. Obrigada

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