O pobre Zé Carlos consertava rádio no bairro de Nazaré na cidade de Salvador. No balcão, entre um chiado e outro dos rádios, ele teve um estalo. Uma melodia inteira na cabeça e duas linhas que vieram redondas, perfeitas.
Ele pegou um guardanapo de bar, e anotou. Mas, depois nada veio na cabeça para continuar aquela música. Triste buscava inspiração e esta não vinha. Zé Carlos ficou noites acordado. Acendia a luz, pegava o violão emprestado do vizinho, tentava puxar o resto. Mas a música não vinha. Era como lembrar de um sonho pelo cheiro.
Com raiva e vergonha, amassou o guardanapo e jogou numa caixa de válvulas e parafusos. "Se não vem inteira, não presta para nada esta música." Aquela caixa enferrujada ficou por 23 anos num canto daquele cômodo.
No longínquo ano de 2001 Zé Carlos cansado aposentou e fechou a loja de conserto de rádios. O filho dele vasculhando as coisas da oficina, achou o papel amarelado, quase pó, e colou na geladeira só porque achou a letra do pai bonita.
Um amigo violonista que vivia no Pelourinho viu aquele rascunho, e ali mesmo sentado num banquinho de madeira colocou os acordes que faltavam, e a coisa tomou forma e chegou até o Caetano Veloso, que logo assumiu gravar.
Quando
Zé Carlos ouviu numa rádio de Salvador pela primeira vez, ele não chorou,
porque estava fazendo sucesso. Chorou porque, pela primeira vez em 23 anos,
aquela agonia da criação na cabeça fez um silêncio, dormiria em paz.
Toninho
07/10/2026
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Meu abraço de paz e luz.