São vivas as lembranças da casa da vovó na roça. Cada peça da casa
tinha uma história de família. A vovó gostava de lembrar como tudo aconteceu. O
seu quarto aconchegante numa simplicidade. O quadro do vovô era intocável ao
lado do seu. Naquela cama eu me refugiava dos meus medos das assombrações, mula-sem-cabeça,
lobisomem e outras criaturas, que diziam passear pelas noites da Quaresma, que
para mim era o ano inteiro.
Naquele quarto eu me sentia seguro no cantinho da vovó, ouvindo o
deslizar de um terço em suas mãos em orações, que eu ouvia nos seus sussurros.
Quando findava suas orações, ela apagava a lamparina e eu ficava de olhos
arregalados debaixo do cobertor e ouvia seus suspiros num sono sereno e o canto
de uma agourenta coruja. O cheiro forte de querosene me fazia dormir vencendo
os meus medos.
Bem cedo ela acordava naquele quarto, quando o sol raiava no por
entre as arvores invadindo as gretas da janela de três tabuas. Eu menino dormia
e só acordava, quando o cheiro de café preto entrava por toda a casa de apenas
dois quartos. Lá fora algazarra das galinhas e pássaros assanhados pelo canto
do galo carijó. Era magia acordar naquele quarto voltado para o quintal.
Hoje este quadro na parede reescreve uma linda infância num lugarzinho
pacato sem energia elétrica, onde vida parecia fluir bem devagar. Há uma
saudade, que faz festa no meu coração nas lembranças desta vovó.
Toninho
15/10/2024
Grato pela leitura.
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