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segunda-feira, 11 de julho de 2011

O homem que comeu a pomba.













Foto propria.








O homem comeu a pomba.

Mês de Junho uma manhã como outra qualquer, não fazia frio, pois não se faz frio que incomode nesta cidade do Salvador, aqui o sol castiga a gente entra ano e sai ano, melhor entra carnaval e sai carnaval. Naquela manha estava na Praça 2 de Julho fazendo um relax e admirando todo local, depois de ter dado umas voltas na praça, mas não fora atrás de um trio e sim numa caminhada leve. É muito relaxante esta pratica bem cedo, quando os pássaros nos brindam com seus mais variados cantos e ainda não se tem a carga de monóxido de carbono normal dos centros de grandes cidades emitidas pelos veículos automotores.

Pois nesta manha, aproveitei para saborear um leve café com leite e um naco de bolo caseiro, feito pelas abençoadas mãos da soteropolitana Benta, que ali na praça, defende a sobrevivência de seus três filhos menores, a quem os pais desconhecem como tantos nesta cidade de Oxum. Ela se instala na praça, todos os dias pela manhã com sua banqueta junto às grades, que protegem e envolvem a praça. Sempre sento nos bancos, que ficam de frente para o Teatro Castro Alves e próximo do monumento à Independência da Bahia de ocorrida em 2 de julho de 1823.

Num banco ao lado dois senhores negociavam livros antigos, observado pelo estado de conservação aquele tom amarelado encardido. No banco à minha frente duas senhoras cada uma com um pequeno cão de raça bem cuidado e alimentado, pois não ensaiavam querer do meu bolo. Como em toda praça que se preze os pombos passeavam e infestavam todos os pontos. Tranquilamente estes pássaros urbanos ciscavam em circular, emitindo seu tradicional canto rouco, sempre bicando algo no chão, sendo que perto de mim achavam algumas migalhas de bolo que intencionalmente deixava cair para eles.

Voltando ao caso, quando estava junto da senhora dos bolos, um destes pedintes moradores de rua, sujeito forte aparentando saúde razoável, aproximou-se pedindo para lhe pagar algo, com naturalidade neguei, pois já o tinha feito no dia anterior, não queria vicia-lo aos meus favores, tempo em que a própria senhora pediu para não importunar seus fregueses. Neste instante lembrei-me do velho Luiz Gonzaga com a musica Vozes da Seca (... uma esmola a um homem que é são ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão...), este fato me fez refletir sobre a mendicância nos centros das cidades, por seres, que poderiam estar na maquina produtiva.

Assim, olhava este homem no meio da praça, abordando as pessoas, estendendo suas mãos a pedir dinheiro, circulou pela praça sem sucessos. Voltava para o ponto, onde eu observara os homens em negocio e as idosas dos cães. Os pombos em bando pelo chão na maior algazarra disputando as migalhas. E como num vôo de ave de rapina, aquele homem se atirou sobre os pombos e com ligeireza de quem está habituado ao ato, conseguiu agarrar um destes e saiu lentamente com aquele olhar desconfiado, ocultando debaixo da suja camiseta de malha com dizeres de “Sou Chicleteiro”, se embrenhando na primeira esquina. Todos na praça ficaram na maior inércia, coisa do medo coletivo implantado no cotidiano, pela falta de policiamento em monumentos e praças nesta cidade.

Uma das idosas olhando para nós comentou sobre nossa covardia por não ter feito nada e disparou sua revolta em afirmar, que já não se fazem homens como antigamente e não me senti ofendido.
Mudamente os dois senhores me olharam e eu a eles com cara de caxinguelê.

Voltei para aquelas senhoras e argumentei que ele nos pediu comida e não demos, ele pegou a pomba e vai comê-la. Caso eu fosse impedi-lo poderia virar um herói aos olhos dela. Mas, se ele revida e me mata, a terra vai se alimentar do meu ato heroico e amanha serei apenas uma saudade para meus familiares, nenhuma placa ganharia nesta praça, nem as pombas estariam isentas de outros ataques. Cadê o policiamento da praça prometido para todas as praças da cidade? As senhoras já reclamaram no uso de seus direitos? 

Silencio total, elas se entreolharam e caladas saíram de mansinho com seus cachorrinhos. Enquanto o homem curvava a esquina da Av. Sete de Setembro e seguia para seu canto com seu pombo para o almoço.


Toninhobira
10/07/2011.



21 comentários:

  1. E lhe digo mais, ele não está errado no meu ponto de vista. Nós deixamos de ser caçadores por causa da organização social e por causa dos meios de produção que se criaramem torno dela. Porém, como ela é excludente, os renegados tem todo o direito de exercer sua porção caçadora na cadeia alimentar. Vou ser execrado pela sociedade protetora dos animais, mas o homem também é um animal que precisa de proteção e alimento.rsrs
    Você está corretíssimo também, eu acho! Abraços, paz e bem.

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  2. Nossa, que crônica bem feita e cheia de detalhes que me colocaram ali naquela praça olhando assombrada... Que coisa! abraços,linda semana,chica

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  3. Bom dia,

    Sou Portuguesa e visualizei o seu blog, porque me tornei seguidora do blog do Geraldo.
    Vi o seu blog com olhos de ver e a esperança abunda nele.
    Crítica social, boa poesia e a música é muito alegre, como vocês, nordestinos.

    Abraço de luz.

    afectosecumplicidades.blogspot.com

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  4. Super interessante a cronica meu amigo, rica em detalhes, foi como se eu estivesse ali, sentado no banco...abraços de boa semana pra ti...paz e poesia sempre.

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  5. Detalhou com sabedoria e conhecedor de causa num texto bem escrito. Conheço a questão e tudo foi muito fidedgno. Abração, poeta!

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  6. Bom dia,Toninho!!

    Sabe que nunca tinha pensado uma coisa destas?O que é bem obvio se pensarmos bem...quem não tem o que comer, come qualquer coisa que achar..mas que impressiona, ah!isso impressiona!
    Adorei o texto, fiquei hipnotizada do início ao fim! Melhor mesmo, não ter feito nada, podia acontecer uma tragédia...
    Beijos pra ti! Com meu respeito e admiração!

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  7. Toninho,
    Sem querer ofendê-lo e considerando que o seu ato foi mais que sensato e inteligente, dadas as circunstâncias, ouso apelar para aquele velho ditado: “Melhor um covarde vivo, do que um herói morto”. Muito interessante e detalhada a crônica. Me senti coadjuvante da história. Bjkas com muito carinho!

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  8. Acho você fez certo, meu amigo, talvez nao estivesse aqui hoje nos escrevendo essa maravilhosa crônica!

    Beijos e uma semana de paz Toninho!

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  9. Olá Toninho

    Crônica de cunho crítico social bastante importante, mas fui caminhando em suas palavras e participando deste seu detalhado contar.

    As pessoas confundem o que é cada um fazer a sua parte e as senhoras quiserem jogá-los homens) no fogo ao invés de reclamar com a falta de policiamento municipal.
    "Vamos das a Cesar o que é de Cesar, não é mesmo? Caso contrário vamos nos perder diante de tantas questões sociais.

    Aproveito para agradeçer seu estímulo e carinho
    ao meu espaço.
    bja

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  10. Oi Toninho, que bela crônica, com tantos detalhes, que até me senti sentada nessa praça assistindo tudo, e ao mesmo tempo assustada com todos os acontecimentos. Parabéns amigo, mais uma crônica excelente que vc nós presenteia. Um Beijo e ótimo começo de semana.

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  11. Que texto belo meu querido... fez-me sentir estar na praça... observando toda a situação...um ato incomum por certo, mas, como julgar alguém, meu querido, especialmente com fome.
    Boa semana...beijinhos
    Valéria

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  12. Mineiro, fui parar lá na praça ao lado da Chica-Chicoria... mas adorei a riqueza de detalhes tão bem narrados por ti....


    bjs meus

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  13. Oi Toninho, achei a crõnica muito boa, rica em detalhes, formidavel, parbens. quanto ao resto faço de Cacá as minhas palavras,Um abraço carinhoso, Celina

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  14. Mesmo que as pessoas mudem e suas vidas se reorganizem,
    os amigos devem ser amigos para sempre,
    mesmo que não tenham nada em comum,
    somente compartilhar as mesmas recordações,
    pois boas lembranças são marcante,
    e o que é marcante nunca se esquece! Uma grande amizade
    mesmo com o passar do tempo é cultivada assim!
    Vinicius De Moraes
    Uma feliz semana aceite com carinho
    minha mensagem.
    Deus esteja sempre presente na
    vida de todos nós beijos no coração,Evanir.

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  15. Olá, Toninho!
    Realmente sua crônica é uma crítica social muito bem feita, através de um olhar de pessoas comuns como nós! Parecia que estávamos juntos, observando tudo o que se passava naquela praça desta querida cidade.
    Mas, como bem frisou nosso amigo Cacá, realmente o homem deixou de caçar porque encontra os produtos que quer e precisa no supermercado, mas neste caso, o pobre, infeliz, faminto, tinha que tomar uma providência e eu acho que ele fez certo. Lá no Egito comem pombos como uma iguaria sem igual, dissem-me uma amiga blogueira que lá morou e que quando disse a suas amigas que aqui no Brasil eles abundavam nas praças, elas lamberam os beiços. hehe
    Quanto ao reclamo das senhoras, não têm razão ou fundamento, já que ninguém, nem homem nem mulher, toma alguma providência, reclamando com os orgãos que deveriam fazer este trabalho.
    Eu tenho militado muito, por email sempre e conseguido algumas coisas, como transformar um lugar de despejo de lixo lá em Petrópolis, num belo jardim ou fazer fotos de uma obra com caixa dágua descoberta aqui em Niterói e mandar pra jornal, coisa que no dia seguinte foi imediatamente resolvida.

    As pessoas reclamam, mas não fazem nada, esta é a verdade.
    beijos, muitos, cariocas

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  16. É sempre muito bom ler seus textos!
    Bjs.

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  17. Boa noite,

    Agradeci no meu blog as suas elevadíssimas palavras.
    De novo, as renovo, aqui.
    Eu, talvez, não mereça tanto!
    Vou esforçar-me por não desiludir os meus seguidores, sobretudo os homens, meu forte apoio e fonte de inspiração.
    Amanhã, de tarde, se Deus quiser, penso postar.
    Esperarei por si. Obrigada.

    Bjs de luz.

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  18. Meu amigo, o teor de sua experiência é algo comum a mim pois são dramas de cidade grande.
    Pareceu-me São Paulo e o centro carcomido pela decadência, miséria e opulência de uma elite parecendo viver na Holanda.
    Lembrei-me de um fato acontecido há muitos anos, quando uma humilde empregada doméstica ao quase deixar quebrar um cristal da Boêmia, a patroa lhe advertiu dizendo que aquela peça valia mais que sua vida...
    Não tem nada a ver com sua crônica, mas veio à mente tal acontecimento.
    Abraços fraternos.

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  19. Oiiiiii,ah Toninho eu to um pouco chocada com a historia...esse e um tema que mexe muito comigo...aqui onde vivo na Europa e muito comum ninguem dar nada p os outros.Eu nunca analiso um pedinte...sempre dou a ele o que comer.O juiz vive la no alto e ve tudo...se o pedinte jogar a esmola fora esta entao se mutilando...To escrevendo como eu penso...nao tem nada a ver com o caso,sabe?Ja morei em Salvador e conheco a situacao.
    Um beijao de terca p vc.Aqui ate que enfim o sol apareceu...Bju.Lu.

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  20. Quanta informaçáo para quem observa, beijo Lisette.

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  21. Meu querido amigo

    Um tema muito chocante, as pessoas preferem ignorar e virar a cara para não verem, mas infelizmente é uma realidade que está aí, basta olharmos.
    Meu amigo estou voltando um pouco melhor e quero agradecer o carinho que me deixou em cada palavra.

    Beijinho
    Sonhadora

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