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quarta-feira, 24 de junho de 2026

Atrás de uma grade.

 Escrevendo as quintas desta semana apresenta a imagem de uma grade agredida pelo tempo e tomada pela vegetação, o que esconde esta grade é a convocatória que vem do blog somosartesanosdapalabra.  

A Casa que Virou Mata. Ninguém mais lembra quem morou ali. 

O portão de ferro, antes verde, virou laranja de ferrugem. As dobradiças gritam quando o vento passa, mas ninguém empurra. O mato tomou conta. Trepadeira abraçou a varanda, cobriu as janelas, escondeu o número. Só o telhado ainda escapo.

 Dizem que foi a Dona Lourdes a última moradora. Criava orquídeas e esperava carta do filho que foi tentar a vida em Salvador. As cartas pararam. As orquídeas ficaram. O filho nunca voltou, mas tudo junho a casa se enche de flores roxas que ninguém plantou.

 Os meninos da rua juram que à noite a luz da cozinha acende. Mas não tem energia cortada há 20 anos. É só a lua batendo na ferrugem da geladeira velha, que ainda está lá, de porta aberta, como boca contando segredo.

 Outro dia a prefeitura mandou derrubar. Chegou trator, chegou homem de prancheta. Só que o trator atolou. O mato segurou. As raízes tinham virado alicerce. O homem de prancheta escrevera que o imóvel havia sido tomado pela natureza e foi embora.

 Hoje a casa não é mais casa. Virou estufa. Virou ninho. Virou sombra para quem volta da feira. Passarinho faz morada na chaminé. Gato de rua dorme no que restou do sofá. E uma vez por ano, em dia de São João, aparece uma orquídea nova na janela da frente.

 Abandonada? Não. 

Ela só trocou de família. Agora é mãe de tudo que precisa de abrigo.


Toninho

24/06/2026

Grato pela visita