quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Quem espalha flores, planta caminhos

 

BC_Botandoa cabeça para funcionar da Chica acontece todos os dias 5,15 e 25 para uma imagem postada no blog sementesdiarias. Participe e leia os amigos com links. Desejo uma feliz férias para Chica e Kiko onde haja muito Sol e paz.

Sempre numa bicicleta ele vai,

Com um balaio de cor e cheiro,

E pela estrada de pedra deixa

o rastro de um bom jardineiro.

 

E lá vai pedalando com beleza,

sem pressa, mas com um destino,

Cada flor que cai pelas pedras

Já floresce o chão do caminho.


Perde pétalas, ganha a estrada,

perde pressa, ganha um verso,

Quem espalha flor no caminho

Faz florescer todo o universo.

 

Toninho

15/10/2026

Grato pela visita



Minha homenagem aos mestres
em atividades e os inativos,
com igual importância.



quarta-feira, 7 de outubro de 2026

O rascunho da criação.

 

BC_escrendo às quinta nesta semana vem do amigo Ibso do blog caminoutopia onde tem links dos amigos participantes, onde ele propõe que crie uma historia sobre o primeiro rascunho. Eu enveredei pela ficticia criação de uma canção.

O rascunho da criação.

Era o ano de 1978 o país vivia sob uma ditadura, que já tinha sumido com muitos artistas contra o regime. A censura era total e o silencio imperava, alguns artistas buscavam na música, críticas ao sistema, mas sempre eram fichados e barrados pelo sistema.

O pobre Zé Carlos consertava rádio no bairro de Nazaré na cidade de Salvador. No balcão, entre um chiado e outro dos rádios, ele teve um estalo. Uma melodia inteira na cabeça e duas linhas que vieram redondas, perfeitas.

Ele pegou um guardanapo de bar, e anotou. Mas, depois nada veio na cabeça para continuar aquela música. Triste buscava inspiração e esta não vinha. Zé Carlos ficou noites acordado. Acendia a luz, pegava o violão emprestado do vizinho, tentava puxar o resto. Mas a música não vinha. Era como lembrar de um sonho pelo cheiro.

Com raiva e vergonha, amassou o guardanapo e jogou numa caixa de válvulas e parafusos. "Se não vem inteira, não presta para nada esta música." Aquela caixa enferrujada ficou por 23 anos num canto daquele cômodo.

No longínquo ano de 2001 Zé Carlos cansado aposentou e fechou a loja de conserto de rádios. O filho dele vasculhando as coisas da oficina, achou o papel amarelado, quase pó, e colou na geladeira só porque achou a letra do pai bonita.

Um amigo violonista que vivia no Pelourinho viu aquele rascunho, e ali mesmo sentado num banquinho de madeira colocou os acordes que faltavam, e a coisa tomou forma e chegou até o Caetano Veloso, que logo assumiu gravar.

Quando Zé Carlos ouviu numa rádio de Salvador pela primeira vez, ele não chorou, porque estava fazendo sucesso. Chorou porque, pela primeira vez em 23 anos, aquela agonia da criação na cabeça fez um silêncio, dormiria em paz.

 

Toninho

07/10/2026

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domingo, 4 de outubro de 2026

Uma viagem obsoleta

 

BC_Botando a cabeça para funcionar de Chica acontece todos os dias 5, 15 e 25 para uma imagem postada no blog sementesdiarias. Confira e participe. 

Uma viagem obsoleta

O foguete em partida é, no fundo, um espelho do nosso tempo: muita potência para sair, pouca paciência para ficar e resolver. Poderíamos estar indo para frente, mas não se aplica esta metáfora, como também aconteceu com os cata-ventos em verde e amarelo em tempos cinzas idos.

Para subir, ele precisa queimar combustível descartado. Vai deixando sua fumaça e uma plataforma chamuscada. O lançamento deixa mais um buraco no orçamento, um recurso que bem poderia ser aplicado na saúde e educação. Ou quem sabe no combate à fome mundial ou contra a degradação da natureza

O que mais estranha é esta busca desenfreada pela colonização do espaço como Marte, ao passo que aqui nada se aprendeu do cuidar da Terra. Porque no fim, o que importa não é até onde o foguete vai, mas o que a gente decide não deixar para trás. E o foguete sobe e cai num mar agredido com tantos lixos do espaço.

 

Toninho

04/10/2026

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quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Greve dos Relógios.

Escrevendoàs quintas-feiras nesta semana vem da Monica que sugere o seguinte: numa lista de vários Títulos extravagantes, escolher um para uma história limitada em 350 palavras.  Minha escolha: A apatia dos relógios quebrados.

Greve dos Relógios.

imagem IA

Na pequena cidade de Tique-taque, todos os relógios quebraram ao mesmo tempo às 15h15 para todo mundo, causando pânico aos moradores.

Diante do inesperado o relógio da padaria se recusou a assar pão no horário. "Pra quê?", ele pensou. O do banco resolveu que não ia mais fazer compensação noturna. Já o velho relógio da Catedral só ficava repetindo: "depois, depois”.

As pessoas foram contaminadas com a apatia deles. Ninguém mais corria. O chefe marcava reunião e todo mundo respondia: "quando o relógio quiser". Só o Seu Osmar, o relojoeiro, tentava desesperadamente alguma solução de conserto.

Ele abriu um relógio e este resmungou: "Deixa a gente em paz", disse o relógio. "A gente ficou 100 anos trabalhando sem férias. Agora estamos em greve de ponteiros." E foi assim que a cidade de Tique-taque virou a cidade mais atrasada.

Inesperadamente o relógio da Igreja, o mais velho fez um pedido de aposentadoria. Desesperado com uma semana parado, o corrupto prefeito de Tique-taque implorou pela volta do relojoeiro Seu Osmar.

Ele chegou, olhou para aquele relógio maior, o chefe da greve, e perguntou: "E aí, o que vocês querem para voltar?" "Queremos uma aposentadoria, uma rede do Ceará e suco de frutos tropicais. "Suco?", Osmar estranhou.

"A gente passou a vida inteira na invisibilidade, todo mundo tinha pressa. Só corre-corre, olha o relógio, tô atrasado! Cansamos”. Seu Osmar entendeu. Foi até a prefeitura e pediu para decretar, que todo relógio de Tique-taque agora trabalhasse só 4 horas por dia. O resto do tempo ficaria balançando na rede tomando suco de maracujá."

Os relógios se entreolharam. Pela primeira vez em 100 anos, deram um sorrisinho torto. Um deles até tentou se mexer e fez... TIC!


A cidade de Tique-taque continuou atrasada com relógios felizes.


Toninho

29/09/2026

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terça-feira, 22 de setembro de 2026

O dia ruim perfeito


Convocatória escrevendo às quintas nesta semana sob inspiração da Campirela pede uma historia sobre a alegria também é uma decisão. Confira e participe, leia os amigos.


O dia ruim perfeito

 

O dia começou péssimo. A meteorologia prometeu: "Céu limpo, sem chuva". Bernadete acreditou. Claro que acreditou. Levou chapéu, vestido leve e nada de sombrinha para chuva. 

Em 10 minutos, o céu desabou. O ônibus passou lotado e a molhou mais ainda quando passou numa poça. Andou apressada pela calçada no seu salto alto. No celular viu que tinha uma mensagem do chefe: “Cadê você?".

Bernadete buscou abrigo num bar, para poder responder ao chefe e falar do temporal. O café que pediu, caiu no chão, a fatia pão com manteiga também foi ao chão com o lado da manteiga para baixo. Ela estava encharcada, o rímel borrado, olhou no pequeno espelho e se sentiu uma panda triste na chuva. 

E aí ela começou a rir. Riu porque nada mais podia dar errado. Riu porque a previsão errou de novo e ela errou em acreditar. Riu porque, no fundo, estava a viver um dia gloriosamente desastroso.

Sorrindo disse para o dono do bar: "today I had a bad day", ele não entendeu nada, abanou a cabeça pensando ser uma maluca na chuva. Ela riu ainda mais alto.

Naquele momento, uma senhora, que estava junto ao balcão tomando café com bolo, vendo a situação de Bernadete, ofereceu um pedaço de bolo de milho. Segundo ela era para equilibrar o dia.

E ali, ensopada, comendo bolo compartilhado daquela velha senhora, toda equipada para a chuva, ela teve um acesso de alegria absurda. Então olhando para a senhora disse: “Olha se hoje está ruim, pelo menos está muito engraçado, me dê um abraço. ”

Bernadete entendeu que este dia ruim, acabou virando a melhor história para ela contar à sua família, quando retornasse à noite. Com tempo ruim também a gente dá bom-dia e pode rir muito depois.


Toninho

22/09/2026

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quarta-feira, 16 de setembro de 2026

O Calouro

 

Escrevendo às quintas-feiras em 17 de setembro é comandado pela Tracy, que nos provoca a falar sobre o inicio de ano letivo. No caso do Brasil este aconteceu no inicio do ano, mas vamos à convocatória no blog tracycorrecaminos onde tem links dos amigos participantes. Incentive lendo.

Foto IA

Lucas desceu do ônibus em Salvador com uma mochila nas costas, um comprovante do Programa de financiamento escolar no bolso e o nome da mãe tatuado no braço esquerdo, para não esquecer, o que muito o motivou estar ali.

Era o primeiro da família a entrar na universidade. A rua inteira fez festa quando saiu o resultado e no jornal estava o nome de Lucas. Só que ninguém contou para ele que a universidade também cobra, e não é só em prova. Seriam cinco longos anos de muita dedicação e aplicação até a formatura.

Primeiro dia. Anfiteatro lotado. O reitor fala de "futuro da nação", o microfone falha, o ar-condicionado também, um dia de muito calor. Aos calouros é desejado boas vindas e afirma, que a reitoria está sempre aberta para eles. Lucas anota tudo, até o que não precisa. Medo de perder alguma coisa. Se sentia deslocado na turma.

Na fila do restaurante de preço baixo, ele conta as moedas. Ainda dá. Ao lado, um veterano reclama, que aumentou neste ano. Lucas pensa: "para mim, é o preço de um sonho estar aqui e ainda poder alimentar neste preço". Mas ficou temeroso com os preços dos livros e que não tinham na biblioteca.

À noite, liga para a mãe: "Tá tudo ótimo, mãe. Aqui é enorme". Não conta que está com dor no pé de tanto andar a pé à procura de livraria com preço mais em conta da sua lista de material. Entendeu porque muitos desistem no primeiro ano.

Ele desliga e abre o caderno. Na primeira página, escreveu só uma frase: "Não vim aqui para ter diploma na parede. Vim para tirar minha família da condição de vulnerabilidade". O ano letivo começou. E eu não desistir, nem vou embora.

 

Toninho

17/09/2026

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domingo, 13 de setembro de 2026

Sob o tapete

 


BC_Uma imagem em 140 caracteres deste final de semana apresenta a imagem acima para o exercicio de sintese no blog devaneiosedesvarios de nossa amiga Marina. Confira e participe. 

Olhar I

Esconder lixo sob tapete não limpa casa,

Apenas só muda o cheiro de lugar.

Limpeza dá trabalho na hora precisa.

Descartar o que não serve mais.

 

Olhar II

Miséria oculta sob tapete do gabinete.

Muito comum na política corrupta.

Uma hora vão tropeçar no tapete,

O mau cheiro invadirá seu discurso.

 

Toninho

13/09/2026

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quarta-feira, 2 de setembro de 2026

O Moedor de café.

 

O Projeto Escrevendoás quintas no blog do amigo Luferura vem com a proposta de uma máquina, que nos leve ao passado e nos devolva ao futuro com nossas esperanças, medos e sonhos. Confira os participantes. Minha maquina um moedor de café.

O Moedor de café.

Atrás da porta da cozinha, preso por um prego torto, ficava o moedor de café do meu pai. Ferro fundido, madeira gasta. Ninguém usava. Só atrapalhava a porta bater, mas era para os meninos uma diversão o uso semanal.

Hoje a porta emperrou de novo. Eu fui tirar o moedor do caminho e, sem querer, girou a manivela. Créc, Créc, Créc. Cheirinho de café queimado subiu. Não era café. Era o tempo moendo as minhas belas lembranças.

A cozinha rodou. Quando abri os olhos, a porta era a mesma, mas a tinta era nova. O moedor estava no mesmo lugar, só que brilhando. E uma voz lá fora pude ouvir:

- Deixa esse moedor quieto, menino!

Meu pai. De chapéu, com a camisa de brim caqui com logomarca da empresa Vale. Moía o café de verdade, na mesa. Cada volta da manivela soltava uma fumacinha que era uma cena comum naquelas casinhas da Vila Operaria todos dos os fins de tarde, quando os homens voltavam da mina de minério.

Nesta visão repentina entendia que cada grão que ele moía era um dia passado.

Eu disse para ele, que ia usar o moinho para moer para frente. Ele apenas sorriu, dizendo que “para frente não tem grão ainda, meu filho”. Só tem pra trás. E se moer tudo, acaba.

Eu peguei a manivela e girei com força e rápido, com saudade apressada. O cheiro ficou cada vez mais forte. Senti-me tonto ao som do Créc, Créc, Créc.

A porta bateu sozinha, acendeu os meus medos de assombrações.

Eu ali parado, com a mão na manivela do moedor ainda quente na mão. Na caixinha de baixo, onde deveria ter pó de café, tinha só uma coisa: um grão inteiro, ainda por moer. O dia de hoje.


Toninho

02/09/2026

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sábado, 29 de agosto de 2026

Barco dorme

 

BC_uma imagem em 140 caracteres vem do blog devaneiosedesvarios de nossa amiga Marina de todo fim de semana para uma imagem com descrição. Participe e leia os amigos. Para a linda imagem abaixo da Marina deixo hoje dois olhares.


Olhar I

Numa real calmaria um barco dorme

Na restinga sal e sol foi-se a maré.

Maré foi e volta, o sonho não se foi.

Sede de navegar o barco balança.

 

Olhar II

 

Infinita angustiante espera

A corda frouxa, casco gasto

No raso ancorado descansa.

Quem vive de maré sabe da espera.

Navegar a alma se refaz.

 

Toninho

29/08/2026

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quarta-feira, 26 de agosto de 2026

O olhar materno.

 

Escrevendoás quintas deste dia 27 vem com uma proposta da Monica no seu blog neogeminis onde ela apresenta a imagem acima e pede que em primeira pessoa, possamos escrever sobre o impacto de um olhar, ("Seja quem for o dono ou a dona desses olhos e sejam quais forem as circunstâncias")


 

O olhar materno.

Eu não lembro, de todas as palavras que ela me disse. Mas eu lembro de todos os olhares dela lá naquela vila operária onde cresci menino livre com vento nas costas. Uma rua de terra vermelha, de pouca luz. Lá as casas eram iguais e os vizinhos eram amigos. Cresci lá, sob os olhos de todos e principalmente de minha mãe.

Quando eu era pequeno e caía na rua jogando bola, machucava todos os dias, mas ela não corria desesperada. Ela me olhava firme nos olhos. Era um olhar que dizia: "levanta seja homem". E eu levantava, mesmo chorando.

Quando adolescente fazia coisas erradas, esperava dela repreensão e gritos. Ela só me olhava por cima dos óculos, na cozinha. Não tinha raiva. Tinha decepção e tinha amor, ao mesmo tempo no olhar. Aquele olhar por certo me corrigiu, pois tinha vergonha de vê-lo triste.

E quando eu fui aprovado para a escola profissionalizante (SENAI), quando voltei para casa com a farda fornecida pela companhia (Cia Vale do Rio Doce) cheio de orgulho, com um riso largo no rosto, ela me olhou da porta. O olhar dela já dizia: "eu sempre soube". Apenas me abraçou sem dizer nada.

Quando ela viu no jornal, o meu nome na lista dos aprovados no vestibular de engenharia, de seus olhos duas lagrimas compridas escorregaram. Olhou-me bem nos olhos e só disse: “eu tinha certeza.

Hoje eu entendo. Minha mãe nunca precisou ser forte na voz. Ela foi forte no olhar. O olhar dela foi meu mapa, meu freio e meu empurrão.

E até hoje, quando a vida me encara feio, eu lembro daquele olhar. E sigo. É porque, olhar de mãe a gente carrega para vida toda. Eu guardo esse olhar como um tesouro aqui no lado esquerdo do meu peito. Um olhar que é guia.


Toninho

25/08/2026

Grato pela visita.

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

O Céu mora no sertão

 


BC_Botandoa cabeça para funcionar, esta BC nasceu de uma brincadeira da Chica com seu neto Neno em leitura de imagens e hoje diante da partida do Neno para seguir estudos, ela trouxe esta imagem para externar sua já saudade. A BC acontece todos os dia 5,15 e 25 no seu blog sementesdiarias. Confira os olhares de outros amigos com link por lá.


O Céu mora no sertão

Vejo as asas em pleno voar.
O meu olhar vira em poesia.
Lá em cima é tão bom sonhar.
Mas lá embaixo é nostalgia.

Ver estas asas cortando o azul
eu aprendi uma singela lição.
Como é pequeno este nosso eu.
Mas tão imenso é o coração.

Uma nuvem passa risonha
por baixo da asa no flutuar.
Despedida triste em Congonha
com meu medo e meu sonhar.

Quando no sertão ele pousar
sentirei o chão voltar a ser chão.

Ficará na alma um recordar.
Talvez o céu mora lá no sertão.


Toninho

24/08/2026

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quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Mala misteriosa.

BC_Escrevendoás quintas desta semana convoca com base na mensagem acima uma inspiração para a imagem acima. Proposta vinda da Patricia e Rosana no blog somosartesanosdaspalavras onde encontra links de outros participantes. Confira. 

 
 

Mala misteriosa.

 

O voo pousou em Salvador às 22h. Cansado, eu fui direto na esteira e peguei "minha" mala marrom igualzinha à minha. Só em casa percebi o erro.
Abri ansioso: nada de roupas. No lugar tinha um rolo de papel higiênico jumbo gigante, um descascador de legumes azul neon e uma capa de chuva vermelha.

Em pânico. Cadê minhas roupas, meus livros e meu notebook com todas as minhas postagens de 16 anos de blogosfera? Respirei e liguei para a companhia aérea.

 

"Senhor, temos uma passageira aqui com uma mala cheia de livros, roupas e um notebook. E ela está desesperada, vamos marcar um encontro no aeroporto."

Era a Dona Lúcia, 68 anos, voltando de visitar a filha em São Paulo. Ela tinha comprado o papel higiênico na promoção, o descascador porque "o dela quebrou" e a capa de chuva por causa de um alerta sobre uma previsão de temporal.

Marcamos de trocar as malas no aeroporto no dia seguinte. Cheguei primeiro.
Ela chegou depois com a minha mala e um pacote e foi dizendo, que "Trouxe um presente pelo susto". Dentro do pacote: um caderno novo.


"Vi que você escreve. Perdi meu marido ano passado e comecei a escrever para não enlouquecer. Talvez te inspire a escrever uma história."

Peguei minha mala de volta. Roupas amassadas, livros com minhas poesias e o notebook intacto. Mas ganhei também a história da Dona Lúcia, o descascador azul que ela insistiu para eu ficar, e a certeza de que às vezes a mala errada, pode lhe render uma nova amizade com uma pessoa amável.

Hoje o curioso descascador de legumes está na minha cozinha.
E no blog tem uma nova crônica de malas trocadas.

 

Toninho

18/08/2026

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terça-feira, 11 de agosto de 2026

Greve no Metrô de São Paulo

 

Projeto Escrevendoás quintas nesta semana vem com proposta de Patricia e Rosana no blog somosartesãosdepalavras, onde elencaram algumas manchetes de jornais, para serem escolhidas e criadas as historias. 

Minha escolha:  Huelga en Londres por un fantasma.

Adpatei para a situação brasileira


Jornal a Folha do Tietê

*Greve no Metrô de São Paulo devido a um fantasma *  


Maquinistas param as linhas Azul e Vermelha após aparição de fantasma na estação da Praça da Sé. Com isso, o horário de in rush virou caos nesta quinta-feira. Metade do metrô parou às 5h da manhã. Motivo? Os funcionários entraram em greve até resolverem a situação da estação Sé.

Tudo começou quando a maquinista Julieta viu um homem de terno antigo e chapéu Panamá branco andando na contramão do túnel. "Ele estava com uma lanterna e um crachá. Parou, olhou pra mim e falou: _'Moça, cadê meu vale-transporte atrasado?'", contou Julieta, ainda assustada.

Comunicado ao sindicato, este soltou uma nota alertando sobre o estresse por que passava os operadores e que o fantasma se tratava de Joanito, ex funcionário da Companhia de metrô, que morreu esperando ganhar uma causa trabalhista na justiça, por isso devia estar vagando pela linha do metrô. Certa vez um faxineiro relatou que viu uma vassoura andando sozinha.

Gente curiosa passou a frequentar a Praça da Sé, ambulantes com seus pontos de vendas de lanches, outros vendendo velas e tinha até ponto de apostas, para ver quem era o fantasma. O bispo foi chamado para benzer a estação. Estableceu-se um centro de comercio variado na Praça, misturado com jornalistas e cinegrafistas, para registrarem a aparição.

Um grupo levou um pai-de-santo, que buscaram em Salvador de aviãao. Após seus demorados rituais ele disse que Joanito já estava em paz e que se retiraria dos trilhos. A maquinista Julieta devia acender uma vela branca todos os dias antes de suas viagens. Os presentes afirmaram, que sentiram um forte cheiro de enxofre e um apito longo vindo dos trilhos.

No dia seguinte o Sindicato declarou o fim da greve. Os trens voltaram nas Linhas Azul e Vermelha. Agora na Praça da Sé foi instalado um banquinho de cimento com o nome de Joanito, nosso funcionário do além.

No outro dia a manchete ironica no jornal dizia, que até fantasma faz greve na cidade de São Paulo, que esta cidade não brinca em serviço, nem depois da morte.

 

Toninho

11/08/2026

Grato pela leitura


terça-feira, 4 de agosto de 2026

Adeus carro de boi

 

BC_Botandoa cabeça para funcionar acontece todos os dias 5, 15 e 25 para uma imagem que a Chica posta em seu blog sementesdiarias. Confira os participantes com links por lá.


A velha roda encostada num tronco, comida pelo cupim e corroída pelo tempo. Já foi guia. Já cortou estrada de chão vermelho, levantou poeira e cantou rangendo nas curvas. Puxada por boi manso, guiada por mão calejada, que sabia o peso do mundo e o nome de cada pedra do caminho.

Hoje o mato tomou conta. O cipó abraçou os raios, folha virou coberta, formiga fez morada no eixo. O sol ainda bate nela, mas agora é só para lembrar a cor que ela já teve.

Ninguém mais escuta o ranger. Só o vento passando entre os raios vazios, assoviando uma canção antiga. E ela fica ali junto ao tronco como abandono.  

Ainda que esquecida ali no tempo, ela guarda histórias de estradas e gente.

A roda sozinha naquele tronco da mata é testemunha de que um dia a vida passou por ali, pesada, devagar, mas passou. Ela continua sendo roda, mesmo parada.

 

 Toninho

05/08/2026

Grato pela leitura



quarta-feira, 29 de julho de 2026

Uma vida no quase.

 

O projeto Escrevendoàs quintas deste dia 30 apresenta o Potpourri acima, para que usandos uma ou mais expressões acima, construa uma forma de texto. Proposta no blog da Monica, onde voce encontra links de outros participantes.
Minhas escolha: “de tu recuerdo apenas sostengo una sombra.” e “la candidez de algo que casi fue.” 



IA


Uma vida no quase.

Otávio encontrava Ludmila pontualmente todos os dias na varanda às 6 da tarde. Ela chegava com um sorriso largo e Otávio com duas xicaras de café, mesmo sabendo que Ludmila não gostava de tomar café além do café da manhã. Alegava que lhe tirava o sono.

O encontro era sempre cheio de risos de coisas bobas. Eles gostavam de falar do futuro como quem fala de coisas bonitas, distantes, possíveis. Ela acreditava num tal dia e Otavio acreditava na realização em todos estes um dia dela. Mal sabiam eles, do que o destino tecia suas teias no silencio dos dois.

Mas aquele "um dia" nunca virou hoje. Devido conclusão de faculdade Ludmila foi para outro estado no Sul do país, convidada para outro trabalho, onde criaria outra história. Deixou Otávio ali, que por vários dias ainda ficava na varanda com um café na xicara a esfriar na solidão.

Ainda hoje, quando Otávio passa na rua da sua casa, dela recorda apenas uma sombra na calçada. Lembra, de como ela inclinava a cabeça, para ouvir a risada que começava baixinho. E também a candidez de algo que quase foi. Quase foi namoro. Quase planos. Dolorido foi pensar no quase “unidos para sempre”.

Consciente que nada foi. Mas foi tão bonito o suficiente, para ele guardar com carinho estas lembranças da Ludmila. Otávio aprendeu, que tem coisa, que não precisa acontecer efetivamente, para deixar marcas. Às vezes "quase" é o nome que se dá para aquela saudade, que não dói mais. Que ficou nas paredes da casa de sua memória.

 

Toninho

29/07/2026

Grato pela leitura



sábado, 25 de julho de 2026

Estradas da vida

 

BC_Botandoa cabeça para funcionar que acontece todos os dias 5, 15 e 25 no blog de nossa amiga Chica, para uma imagem postada em sementesdiarias. Confira e participe.


Estradas da vida


A estrada com as crateras se abre a minha frente.

Bem sabemos que na vida também temos crateras. 

A gente tropeça, afunda a roda e pensa em voltar. 


Mas estrada abandonada não pode virar desculpa. 

Se a estrada for bem cuidada ela virará caminho.

Por uns trocados pobres jogam brita nas crateras.


Tempo chuvoso leva sempre a culpa pelas crateras.

Esquecem das cargas pesadas sem a fiscalização.

Mesmo esburacada, vai levando gente para casa. 

 

Assim devagar e desviando sobre os remendados,

Segue-se viagem sobre as estradas esburacadas.

No fim destas haverá sempre alguém na espera.

 

Toninho

24/07/2026

Grato pela leitura 



Neste domingo 26 de julho

Parabenizamos nossa 

Querida amiga Rosélia.



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Também parabenizamos 
a todos os avós 
neste dia 26




 


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